Advogado, docente e advisor internacional, português reconhecido pela Forbes constrói uma carreira que conecta direito, sustentabilidade, estratégia e relações empresariais entre a Europa, o Brasil e o espaço lusófono
Aos 24 anos, João Maria Botelho já circulou por alguns dos ambientes em que são discutidas as transformações que estão redesenhando a economia global. Da advocacia empresarial às instituições europeias, das universidades a encontros com empresários internacionais, o português vem construindo uma trajetória marcada pela interseção entre conhecimento, negócios, sustentabilidade e regulação.
Agora, uma nova frente ganha espaço em seu percurso: a aproximação com o Brasil. Advogado de formação, com experiência em corporate, M&A, sustentabilidade e regulação europeia, Botelho iniciou a carreira na Pérez-Llorca, uma das principais sociedades de advogados da Península Ibérica. Paralelamente à atuação jurídica, desenvolveu projetos ligados à produção de conhecimento, educação, empreendedorismo e conexão entre diferentes mercados.

Em 2024, foi incluído na lista Forbes Portugal 30 Under 30, na categoria Sustentabilidade e Inovação Social. No ano seguinte, coeditou o livro Estudos sobre ESG – Desafios Atuais e Futuros, publicado pela Almedina. A obra também foi apresentada no Mónaco, em um encontro voltado a empresários e jovens empreendedores. Mais do que acumular títulos e experiências, Botelho busca transformar conhecimento em aplicação prática.
“O que me interessa é estar onde o conhecimento se transforma em decisão. Uma nova regra europeia só é verdadeiramente relevante quando percebemos o que significa para uma empresa, para um investimento ou para um setor. É essa ponte que quero fazer.”
ESG europeu encontra o agronegócio brasileiro
Uma das novas iniciativas que aproximam Botelho do Brasil é uma obra dedicada ao futuro do agronegócio, com publicação prevista no país. O projeto parte de um setor estratégico para a economia brasileira para discutir temas que vêm ganhando importância no comércio internacional, como sustentabilidade, financiamento, acesso a mercados, cadeias globais de valor, rastreabilidade e regulação.
A experiência do advogado com o ambiente regulatório europeu ganha, nesse contexto, uma dimensão prática. A União Europeia vem estabelecendo novas exigências relacionadas à agenda climática, à transparência das cadeias produtivas, à descarbonização e à responsabilidade empresarial. Para empresas brasileiras que desejam acessar o mercado europeu, compreender essas transformações passou a ser uma questão diretamente relacionada à competitividade. É nesse ponto que Botelho identifica uma oportunidade de aproximação entre Portugal e Brasil.
“Durante demasiado tempo, Portugal e Brasil olharam para a lusofonia sobretudo como uma ligação cultural. Isso é importante, mas é insuficiente. Existe também uma plataforma económica, jurídica e empresarial que ainda está longe de ser explorada em todo o seu potencial.”
Na visão do advogado, Portugal pode funcionar como uma porta de entrada para empresas e profissionais brasileiros interessados em compreender melhor o ambiente regulatório e empresarial europeu. Ao mesmo tempo, o Brasil oferece aos portugueses escala, diversidade econômica e conhecimento em setores estratégicos para a economia mundial.

“Não vejo a relação Portugal–Brasil como uma relação em que um país ensina o outro. O interessante é precisamente o contrário: são duas economias com escalas e experiências muito diferentes, que podem ser extraordinariamente complementares.”
Uma carreira sem caminhos lineares
O livro sobre agronegócio é apenas uma das iniciativas que fazem parte da trajetória de Botelho. Ele também é cofundador do Fora do Lugar, plataforma criada para promover conversas com pessoas que construíram empresas, instituições e carreiras fora dos caminhos tradicionais. A proposta é colocar no centro do debate não apenas os resultados, mas também as decisões, riscos, erros e escolhas que fazem parte de uma trajetória profissional. Outra frente é a Generation Resonance, iniciativa dedicada à participação de jovens em debates relacionados à sustentabilidade, economia e políticas públicas. O projeto já promoveu iniciativas em diferentes contextos internacionais ligados à agenda climática.
Botelho também atua como Embaixador do Pacto Europeu para o Clima, ligado à Comissão Europeia, além de participar como TEDx speaker. Para ele, essas diferentes atividades não representam carreiras independentes, mas partes de um mesmo projeto profissional.
“Não quero escolher entre ser advogado, ensinar, escrever ou construir projetos. Acho que a próxima geração de profissionais vai ter carreiras muito menos lineares. O meu trabalho jurídico dá-me rigor; a docência obriga-me a explicar; os livros permitem aprofundar; e os projetos obrigam-me a transformar ideias em alguma coisa que exista fora do papel.”
A lusofonia como plataforma de negócios
A conexão entre diferentes mercados também está no centro da visão de futuro de Botelho. Para ele, a língua portuguesa pode representar muito mais do que uma herança cultural. Pode funcionar como uma plataforma de circulação de conhecimento, capital, talentos e oportunidades empresariais. Portugal possui uma posição estratégica dentro da União Europeia. O Brasil, por sua vez, reúne escala econômica e protagonismo em setores como agronegócio, energia, alimentos e recursos naturais. Outros mercados lusófonos, como Angola, Moçambique e Cabo Verde, ampliam ainda mais esse potencial. O desafio, segundo Botelho, está em transformar a proximidade cultural em conexões concretas.
“A lusofonia não pode viver apenas de conferências sobre a lusofonia. Tem de produzir negócios, investigação, investimento, projetos conjuntos e circulação de talento. Caso contrário, continuamos a celebrar uma proximidade sem tirar verdadeiro partido dela.”
É nesse contexto que o Brasil começa a ocupar um espaço cada vez mais relevante em sua agenda profissional. A publicação do novo livro deverá ser acompanhada por uma aproximação a universidades, empresas, meios de comunicação e comunidades empresariais brasileiras, especialmente em áreas como sustentabilidade, estratégia, regulação e competitividade. A intenção, segundo ele, não é abandonar Portugal ou a atuação europeia, mas ampliar o alcance de uma carreira que já nasceu internacional.
“Portugal é a minha base e a Europa é uma parte fundamental do meu trabalho. Mas quero que essa experiência dialogue com outras geografias. O Brasil é provavelmente o lugar mais natural para começar a construir essa ponte com escala.”
Conhecimento como ativo estratégico
A trajetória de João Maria Botelho reflete uma transformação que vem ganhando força no mercado profissional: a combinação entre especialização técnica, produção de conhecimento e capacidade de conectar diferentes setores. Em um ambiente empresarial cada vez mais influenciado por mudanças regulatórias, critérios ESG, transição energética, inteligência de dados e novas exigências dos consumidores e investidores, compreender as regras deixou de ser suficiente. É preciso entender como elas impactam decisões, investimentos e estratégias de crescimento. É justamente nesse espaço que Botelho pretende atuar.
Aos 24 anos, sua carreira ainda está em construção, mas algumas características já aparecem com clareza: uma atuação que ultrapassa os limites de uma profissão, uma presença cada vez mais internacional e a busca por transformar conhecimento em conexões concretas.
Entre Portugal e Brasil, o próximo capítulo dessa trajetória pode estar justamente na criação de novas pontes entre sustentabilidade, negócios e oportunidades.
Sobre João Maria Botelho
João Maria Botelho é advogado, docente e advisor internacional nas áreas de sustentabilidade, regulação europeia, corporate governance e estratégia. Foi distinguido pela Forbes Portugal na lista 30 Under 30, é Embaixador do Pacto Europeu para o Clima, TEDx speaker e coeditor de Estudos sobre ESG — Desafios Atuais e Futuros. É também cofundador do Fora do Lugar e fundador da Generation Resonance. Desenvolveu parte de sua trajetória profissional na Pérez-Llorca e atua na interseção entre Europa, negócios, sustentabilidade e relações lusófonas.


