Levantamentos apontam avanço do marketing de influência no país, enquanto especialistas alertam para a necessidade de definir entregas, remuneração, uso de imagem, exclusividade e prazo de utilização dos conteúdos.
O Brasil chegou a 2,1 milhões de influenciadores digitais em 2025, segundo levantamento da plataforma Influency.me. O número representa a entrada de aproximadamente 100 mil novos criadores de conteúdo em apenas um ano, em um mercado que vem ampliando sua participação nas estratégias de comunicação e publicidade das empresas.
A expansão do setor acompanha a profissionalização da atividade. Criadores de conteúdo passaram a ocupar um espaço mais estruturado nas campanhas de marcas, envolvendo não apenas produção de vídeos e publicações, mas também negociações comerciais, direitos de imagem, prazos, remuneração e condições de uso dos materiais produzidos.
De acordo com a edição de 2025 da pesquisa Data-Marketing Leaders, 75% das empresas já utilizam marketing de influência em suas estratégias. O levantamento também aponta que parte das companhias pretende ampliar os investimentos no segmento nos próximos anos.
Contratos como instrumento de segurança
Com o crescimento das negociações entre influenciadores, marcas e agências, a formalização dos acordos se tornou um dos pontos de atenção para os profissionais do setor.
O contrato pode estabelecer, de forma objetiva, quais serão as entregas, os prazos, a remuneração, as condições de aprovação, o uso de imagem e conteúdo, eventuais cláusulas de exclusividade e as regras para cancelamento da parceria.

Para a advogada especialista em direito digital Filomena Maciel, a formalização reduz o espaço para interpretações diferentes sobre o que foi acordado.
“O contrato é importante porque transforma uma boa conversa em um compromisso claro para os dois lados. A confiança é essencial, mas não substitui a definição objetiva do que será entregue, em que prazo, por qual valor e de que maneira o conteúdo poderá ser utilizado.”
Segundo a especialista, o documento também protege interesses dos dois lados da relação comercial. Para o criador, pode ajudar a resguardar remuneração, autoria e uso da imagem. Para a empresa, estabelece parâmetros para entregas, prazos, aprovações e responsabilidades.
A formalização também pode prevenir conflitos envolvendo pedidos adicionais, mudanças no conteúdo originalmente combinado, exclusividade, cancelamentos e utilização da campanha depois do fim da parceria.
“Assinar um contrato não é sinal de desconfiança; é uma forma de preservar a relação e dar segurança para que todos cumpram exatamente o que foi combinado”, afirma Maciel.
Uso do conteúdo pode se estender após a campanha
Entre os pontos que demandam atenção está a autorização para que marcas utilizem os conteúdos produzidos durante as campanhas.
Vídeos e imagens publicados originalmente nas redes sociais de um influenciador podem, dependendo da negociação, ser utilizados posteriormente em anúncios, sites, redes sociais, materiais institucionais ou outras plataformas.
Por isso, a definição contratual deve considerar onde o conteúdo poderá ser veiculado, por quanto tempo e em quais formatos. Dependendo do acordo, também podem ser estabelecidas permissões específicas para impulsionamento de publicações, veiculação de anúncios e compartilhamento do material com terceiros.
Para Maciel, a extensão desse direito de uso merece atenção porque o conteúdo pode continuar gerando valor comercial para a marca mesmo depois do encerramento da campanha.
“A marca poderá editar o conteúdo? Reutilizá-lo? Associá-lo a outras campanhas? Essas possibilidades precisam estar previstas. Cada uma delas pode representar uma extensão do uso inicialmente negociado e, consequentemente, exigir uma remuneração diferente.”
A advogada recomenda ainda cautela com autorizações genéricas, sem prazo determinado ou sem delimitação dos canais em que o material poderá ser utilizado. Na avaliação dela, cláusulas amplas podem resultar em uma utilização maior do que aquela inicialmente considerada na negociação.
Profissionalização exige mais clareza nas relações comerciais
O avanço do marketing de influência amplia as oportunidades para criadores, marcas e agências, mas também aumenta a complexidade das relações comerciais envolvidas nas campanhas.
Nesse cenário, questões jurídicas passam a fazer parte da rotina profissional dos influenciadores, especialmente à medida que contratos envolvem diferentes formatos de entrega e direitos relacionados à imagem e ao conteúdo.
A definição prévia das condições da parceria pode reduzir conflitos e tornar mais transparente a relação entre as partes. Para um mercado que reúne milhões de criadores e concentra investimentos crescentes em comunicação digital, a formalização dos acordos passa a acompanhar o próprio processo de profissionalização da atividade.


