Estudo da Anafima aponta que música ao vivo respondeu por cerca de 81% da atividade econômica do setor em 2024; número de eventos listados até agosto de 2025 cresceu 31%
O negócio da música no Brasil está cada vez mais ligado aos palcos. Enquanto o streaming transformou a forma de consumir gravações, os shows ao vivo passaram a ocupar uma parcela expressiva da economia gerada pelo setor. Segundo levantamento da Associação Nacional da Indústria da Música (Anafima), a música movimentou R$ 116,06 bilhões no Brasil em 2024, dos quais aproximadamente R$ 94 bilhões vieram da música ao vivo. O segmento representou cerca de 81% da atividade econômica do setor. Revista UBC
O estudo mostra que a indústria musical ultrapassa a venda ou reprodução de gravações. Shows, festivais, ingressos, serviços, profissionais técnicos, produção, equipamentos, turismo e atividades relacionadas formam uma cadeia econômica que ganhou relevância nos últimos anos.
Até 10 de agosto de 2025, foram identificados 988 eventos musicais nas principais plataformas de venda de ingressos, contra 752 no mesmo período de 2024. O levantamento representa um crescimento de 31% no número de eventos listados, embora os dados de 2025 ainda sejam parciais. UBC
Sudeste concentra maior parte dos eventos
A distribuição do mercado também revela uma forte concentração regional. Em 2024, o Sudeste respondeu por aproximadamente 67% dos eventos musicais analisados pela Anafima. O Sul representou 9,5%, o Nordeste 12,4%, o Centro-Oeste 5,7% e o Norte 5,3%. UBC
São Paulo aparece como principal polo do mercado, com mais de 40% dos eventos dentro da região Sudeste, segundo o estudo. A infraestrutura para grandes apresentações e a concentração de público e renda ajudam a explicar a relevância da região na cadeia de shows. UBC
O Nordeste, por outro lado, apresenta características próprias, com eventos culturais de grande escala, como Carnaval e festas juninas, que também conectam música, turismo e economia local.
Shows também geram receita para quem cria as músicas
A economia dos eventos não termina na bilheteria. As músicas executadas durante apresentações também geram direitos autorais para compositores e demais titulares.
Dados da União Brasileira de Compositores (UBC) mostram que o Ecad arrecadou R$ 1,83 bilhão em direitos autorais em 2024, alta de 12% sobre 2023. No mesmo ano, o conjunto das sociedades de gestão coletiva distribuiu R$ 1,483 bilhão aos titulares. Revista UBC
No Carnaval e nas festas de fim de ano, foram distribuídos R$ 23,3 milhões em 2024 na categoria, crescimento superior a 11% em relação ao ano anterior. Em 2025, a distribuição relacionada ao Carnaval chegou a R$ 30,8 milhões para mais de 11 mil compositores e artistas, segundo a UBC. Revista UBC
Nos shows, a cobrança de direitos autorais também integra a estrutura financeira dos eventos. De acordo com a UBC, apresentações com música ao vivo produzidas por usuários eventuais podem ter cobrança equivalente a 10% da receita bruta quando há venda de ingressos, seguindo as regras de arrecadação aplicáveis. UBC
O desafio dos pequenos palcos
O crescimento dos grandes eventos, porém, convive com dificuldades enfrentadas por espaços menores. Casas de pequeno e médio porte têm papel importante na formação de público e no desenvolvimento de artistas que ainda não chegaram aos grandes festivais.
Em análise publicada pela UBC em 2024, especialistas apontaram dificuldades econômicas enfrentadas por esses estabelecimentos, incluindo aumento de custos e redução de margens. O fechamento de espaços menores também afeta músicos, técnicos, produtores e outros profissionais que dependem dessa cadeia de trabalho. UBC
Essa diferença cria uma característica importante do atual mercado: enquanto grandes eventos podem concentrar público e receitas, os pequenos palcos continuam sendo parte relevante da estrutura que permite o surgimento e o desenvolvimento de novos artistas.
Dados passam a orientar as turnês
A profissionalização do setor também está mudando a maneira como artistas planejam suas apresentações. Informações de plataformas de streaming e redes sociais podem ser utilizadas para identificar cidades onde determinado artista já possui audiência e, a partir disso, orientar decisões sobre turnês.
Especialistas ouvidos pela UBC em 2025 destacaram o uso de dados de plataformas como Spotify, TikTok e Instagram para analisar localização, perfil e comportamento do público antes de definir destinos de apresentações. UBC
Na prática, a lógica aproxima ainda mais música e negócios. O desempenho de uma faixa nas plataformas digitais pode ajudar a identificar mercados potenciais para shows, enquanto a apresentação presencial cria novas oportunidades de receita e relacionamento com o público.
Uma cadeia que vai além do artista
O crescimento da música ao vivo também movimenta uma extensa rede de fornecedores e profissionais. Produção, iluminação, sonorização, montagem de palco, transporte, segurança, alimentação, hospedagem e venda de ingressos fazem parte da cadeia econômica dos eventos.
O estudo da Anafima estima que o ticket médio dos eventos musicais chegou a R$ 432 em 2024, reforçando o peso do consumo associado às apresentações. Revista UBC
Nesse cenário, a música ao vivo deixa de ser apenas uma etapa da carreira artística e passa a funcionar como um ecossistema de negócios. Para artistas, produtores e empresas, entender público, custos, direitos, logística e dados de audiência se torna parte da própria operação da indústria musical.


