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Negócios

Shein pode levantar US$ 1,7 bilhão em IPO, mas investidores anteriores podem receber até US$ 3,5 bilhões

Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest. Foto: Divulgação

Listagem em Hong Kong evidencia a forte redução do valuation da varejista desde 2022 e reforça os riscos e critérios envolvidos em investimentos pré-IPO

A estreia da Shein no mercado acionário de Hong Kong, prevista para 1º de setembro, coloca em evidência uma questão relevante para investidores de empresas em estágio avançado: o valuation atribuído em rodadas privadas pode sofrer uma forte revisão quando a companhia chega ao mercado público. A varejista pretende levantar até US$ 1,7 bilhão com a venda de 280 milhões de ações, em uma operação que pode avaliar a empresa em até US$ 27 bilhões. O valor representa uma queda de aproximadamente 72% em relação aos US$ 98,2 bilhões registrados em uma rodada privada em 2022.

A diferença equivale a cerca de US$ 71 bilhões em valor de mercado entre o pico privado e a avaliação prevista para a abertura de capital. Mesmo com a redução do valuation, a demanda já teria sido suficiente para cobrir a oferta, enquanto investidores-âncora comprometeram aproximadamente US$ 383 milhões. O prospecto também prevê até US$ 3,5 bilhões em pagamentos e ações adicionais destinados a determinados investidores anteriores, em um mecanismo relacionado à expressiva redução da avaliação da companhia.

Da rodada privada à Bolsa

O caso chama atenção para uma característica dos investimentos pré-IPO. A proximidade de uma abertura de capital não elimina os riscos associados ao preço pago pelo investidor nem garante que o valuation estabelecido em uma rodada privada será mantido no mercado público. Para Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, a análise de uma operação desse tipo precisa considerar mais do que a expectativa de uma futura listagem.

“O IPO é uma etapa importante, mas não é o fim e não deve ser analisado de forma isolada. Uma boa empresa também precisa estar acompanhada de um valuation coerente com seus fundamentos e com o cenário de mercado e propor um plano atrativo e coerente de crescimento e inovação”, afirma.

Segundo Patrus, a trajetória da Shein mostra como as condições de mercado podem alterar as expectativas entre uma rodada privada e a chegada à Bolsa.

“No caso da Shein, vemos como as condições podem mudar entre uma rodada privada e a chegada à Bolsa, exigindo ajustes naturais nas expectativas e na precificação, mas também pode ser visto como uma oportunidade de investir em um ativo com o preço certo”, diz.

Valuations privados sob pressão

A diferença entre os US$ 98,2 bilhões registrados em 2022 e os até US$ 27 bilhões projetados para o IPO também reflete uma mudança no ambiente de venture capital. Após o período de abundância de capital e de valuations elevados, empresas em estágio avançado passaram a enfrentar maior pressão para demonstrar crescimento sustentável, rentabilidade, governança e capacidade de acessar o mercado público sem depender de múltiplos considerados excessivamente otimistas. Nesse contexto, a análise de oportunidades pré-IPO tende a se concentrar menos na previsão de qual empresa será a próxima a abrir capital e mais na relação entre preço de entrada, fundamentos, horizonte de liquidez e potencial de retorno.

“Pré-IPO não deve ser tratado como uma contagem regressiva para a Bolsa. O investidor precisa partir da hipótese de que o IPO pode demorar, acontecer em outro mercado ou até ocorrer com um valuation inferior ao da última rodada privada”, afirma Patrus.

Para o executivo, a principal questão é avaliar se a tese de investimento permanece válida mesmo diante de mudanças no cenário.

“A oportunidade está justamente em identificar empresas em que os fundamentos e o preço de entrada continuem fazendo sentido mesmo quando o cenário muda”, completa.

Hong Kong ganha força no mercado de IPOs

A operação da Shein ocorre em um momento de recuperação do mercado de capitais de Hong Kong. No primeiro semestre de 2026, o mercado registrou 87 novas listagens e HK$ 212 bilhões em captações, avanço de 94% em relação ao mesmo período do ano anterior. Com esse desempenho, Hong Kong se tornou o segundo maior mercado de IPOs do mundo no período, segundo os dados apresentados no release.

A Shein chega ao mercado asiático depois de tentativas frustradas de listagem em Nova York e Londres. A escolha de Hong Kong representa, portanto, uma nova etapa para uma companhia que passou por uma significativa reavaliação de mercado desde seu pico de valuation privado. O episódio reforça uma questão central para investidores em empresas pré-IPO: a possibilidade de liquidez futura pode ser um componente importante da tese, mas não substitui a análise do preço pago e dos fundamentos do negócio.

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