Com a inteligência artificial transformando 39% das habilidades exigidas no mercado até 2030, empresas ampliam programas de capacitação para preparar profissionais para novas funções e demandas
A rápida evolução da inteligência artificial, da computação em nuvem e das tecnologias de dados está mudando não apenas os processos das empresas, mas também as competências exigidas dos profissionais. Diante desse cenário, programas de upskilling e reskilling — voltados, respectivamente, ao aprimoramento de habilidades e à preparação para novas funções — ganham espaço como estratégia para enfrentar a escassez de especialistas em tecnologia.
Segundo o relatório AI and the Future of Entry Level Work, do Fórum Econômico Mundial, entre 2025 e 2030, 39% das habilidades exigidas nas diferentes ocupações e setores econômicos deverão ser modificadas em função da inteligência artificial e de outras macrotendências.
A velocidade dessa transformação também preocupa profissionais em início de carreira. De acordo com o estudo, 28% deles acreditam que metade ou menos das competências que possuem atualmente continuará relevante daqui a três anos.
O levantamento mostra ainda uma diferença na percepção sobre o impacto da capacitação. Apenas 48% dos profissionais em início de carreira afirmam que as habilidades desenvolvidas no último ano estão contribuindo efetivamente para sua evolução profissional. Entre gerentes, esse índice chega a 63%, enquanto entre executivos seniores alcança 69%.
Escassez de talentos preocupa empresas
O desafio também é percebido pelas organizações. O relatório aponta que 59% dos CEOs globais consideram a disponibilidade de competências estratégicas uma ameaça aos negócios. Entre eles, 22% afirmam estar altamente ou extremamente expostos a perdas financeiras provocadas pela escassez de talentos.
Para Tatiani Despirto, CFO da Kumulus, multinacional de origem brasileira especializada em cloud, dados e inteligência artificial, a velocidade das transformações tecnológicas tornou o aprendizado contínuo uma necessidade para empresas e profissionais.
“A velocidade com que tecnologias como inteligência artificial, dados e computação em nuvem evoluem faz com que o aprendizado contínuo deixe de ser uma opção e passe a ser uma necessidade”, afirma.
Na avaliação da executiva, desenvolver talentos internamente pode ser uma alternativa mais estratégica do que disputar profissionais em um mercado cada vez mais competitivo.
“Hoje, formar talentos internamente é mais estratégico do que disputar um mercado com escassez de especialistas. Por isso, investimos em upskilling e reskilling para desenvolver profissionais, independentemente da formação de origem, preparando nossas equipes para acompanhar as novas demandas do setor”, explica.
Mudança também afeta as escolhas de carreira
A transformação do mercado de trabalho vem acompanhada de uma mudança nas expectativas dos profissionais. Além da busca por desenvolvimento, fatores relacionados à qualidade de vida ganham importância na escolha de uma empresa.
Segundo o relatório Tendências de RH e Gestão de Pessoas 2026, da Catho, critérios relacionados ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional e à saúde mental passaram de 20% para 58,93% de relevância entre os fatores considerados na escolha de um emprego.
Ao mesmo tempo, a transição de carreira continua apresentando dificuldades. A pesquisa aponta que a dificuldade das empresas para encontrar o candidato adequado aumentou de 24,55% para 70,22%. Já a quantidade de currículos incompletos ou pouco personalizados passou de 1,36% para 30,09%.
Nesse contexto, programas estruturados de capacitação podem aproximar profissionais das necessidades reais das empresas e acelerar a formação de especialistas.
Formação interna transforma trajetórias profissionais
Na Kumulus, o desenvolvimento contínuo dos colaboradores faz parte da estratégia de crescimento. A empresa combina capacitação técnica, desenvolvimento de competências comportamentais e acompanhamento da evolução profissional para preparar as equipes para novas funções e tecnologias.
Um dos exemplos é o de Daniela Marchetti, atual Gerente de Projetos internacionais. Formada em Direito, ela iniciou sua trajetória na empresa como estagiária e, ao longo dos anos, desenvolveu competências em gestão de projetos, tecnologia e relacionamento com clientes. Atualmente, lidera operações voltadas ao mercado norte-americano.
Outro caso é o de Gabriela Maranhão, também formada em Direito, que passou por um processo de desenvolvimento profissional e hoje gerencia projetos relacionados às operações da companhia na Europa.
Nos dois casos, competências como negociação, comunicação e gestão de processos foram combinadas com capacitação técnica e experiência prática, permitindo a migração para funções ligadas ao universo da tecnologia.
O reskilling também pode abrir portas para profissionais que chegam ao setor tecnológico vindos de áreas completamente diferentes. É o caso de Paula Matheus, Business Intelligent Assistant, que anteriormente trabalhava como professora e é mãe de três filhos.
Ela ingressou na empresa como estagiária em engenharia de dados e, após um processo estruturado de capacitação e desenvolvimento técnico, foi efetivada como analista de dados.
A trajetória mostra como programas de formação podem contribuir para acelerar a entrada de profissionais em áreas que apresentam alta demanda por mão de obra qualificada.
Aprender continuamente passa a ser diferencial
Para Tatiani Despirto, a inteligência artificial está tornando a capacidade de aprender e se adaptar um dos principais diferenciais no mercado de trabalho.
“À medida que a inteligência artificial redefine funções, processos e modelos de negócio, a capacidade de aprender continuamente torna-se um dos principais diferenciais profissionais. Se antes o diploma era suficiente para sustentar uma carreira durante décadas, hoje o desenvolvimento constante de competências técnicas e comportamentais passa a ser parte da rotina de profissionais e empresas”, afirma.
Na visão da executiva, o investimento em pessoas deixou de ser apenas uma iniciativa relacionada à área de Recursos Humanos e passou a fazer parte da estratégia empresarial.
“Experiência prévia e formação acadêmica continuam importantes, mas a capacidade de aprender, se adaptar e evoluir tornou-se um dos ativos mais valiosos na economia impulsionada pela inteligência artificial”, destaca.
Para as empresas, desenvolver talentos internamente pode representar uma forma de responder mais rapidamente às transformações tecnológicas, reduzir os impactos da escassez de especialistas e preservar conhecimento estratégico.
Em um mercado no qual funções e competências mudam em ritmo acelerado, o reskilling deixa de ser apenas uma ferramenta de desenvolvimento profissional e passa a ocupar um papel estratégico na construção das organizações do futuro.


