Rafael Zawitoski: “O empresário precisa aprender a governar a si mesmo antes de liderar um negócio”
Mentor de empresários e autor de Governe a Si Mesmo, Rafael Zawitoski defende que o verdadeiro crescimento de uma empresa começa quando o líder assume o controle das próprias escolhas, emoções, hábitos e decisões
No universo empresarial, crescimento costuma ser associado a números. Mais faturamento, mais clientes, equipes maiores, novos negócios e expansão de mercado. Mas, para Rafael Zawitoski, existe uma dimensão anterior a todos esses indicadores: o próprio empresário.
Mentor de empresários, palestrante e autor do livro Governe a Si Mesmo, Rafael construiu sua atuação a partir de uma convicção que resume boa parte de sua filosofia profissional: uma empresa dificilmente cresce de forma sustentável acima da capacidade de quem está no comando.
“Eu costumo dizer que a empresa revela o nível de governo de quem está no comando. Antes de tentar conquistar um território maior, o empresário precisa se tornar alguém capaz de governar esse território”, afirma.
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A ideia pode parecer simples, mas, na prática, exige uma mudança profunda de perspectiva. Em vez de procurar imediatamente uma nova estratégia, contratar mais pessoas ou buscar uma ferramenta capaz de resolver os problemas da empresa, Rafael propõe que o empresário faça primeiro uma pergunta desconfortável: será que o principal limite do negócio está dentro de mim?
Segundo ele, esse momento pode ser identificado quando os mesmos problemas continuam se repetindo apesar das mudanças externas.
“Esse momento chega quando os problemas começam a se repetir, mesmo depois de trocar estratégia, equipe, ferramenta ou processo. Se a empresa muda por fora, mas os mesmos gargalos continuam aparecendo, o empresário precisa ter coragem para olhar para dentro. Muitas vezes o limite não está mais no mercado; está na capacidade do líder de decidir, delegar, manter disciplina, lidar com pressão e sustentar o próximo nível.”
É justamente nesse ponto que entra o conceito de autogoverno, uma das bases de seu trabalho e também do livro que leva esse conceito para o centro da discussão sobre liderança.
O desafio de deixar de ser indispensável
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Para Rafael, um dos maiores paradoxos do empreendedorismo aparece justamente quando a empresa começa a crescer. No início, a presença constante do fundador costuma ser necessária. Ele vende, negocia, resolve problemas, acompanha a operação, cobra resultados e toma praticamente todas as decisões.
O problema surge quando o empresário não percebe que a empresa mudou, mas continua utilizando o mesmo modelo de liderança.
“Porque, no início, aquilo que fez a empresa crescer foi justamente a presença do fundador em quase tudo. Ele vende, resolve, confere, cobra e decide. O problema é tentar levar esse mesmo comportamento para uma empresa maior. O que foi virtude em uma fase pode virar gargalo na fase seguinte.”
Nesse cenário, delegar passa a ser uma habilidade essencial. Mas Rafael ressalta que delegação não significa simplesmente entregar tarefas para outras pessoas.
“Delegar não significa abandonar responsabilidade. Significa trocar controle operacional por clareza, processos, pessoas certas e acompanhamento.”
Para ele, existe ainda uma questão mais profunda por trás da dificuldade de alguns empresários em delegar: a necessidade de se sentirem indispensáveis.
“Muitos líderes não têm dificuldade de confiar apenas na equipe; têm dificuldade de aceitar que não precisam mais ser indispensáveis. Crescer exige maturidade para deixar de ser o centro de todas as respostas.”
Na visão de Rafael, uma empresa que depende de uma única pessoa para tomar todas as decisões não é necessariamente uma empresa forte. Pelo contrário, pode ser uma organização vulnerável.
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“Ser indispensável alimenta identidade e sensação de importância. Só que uma empresa que depende de uma pessoa para tudo não é forte; é vulnerável. O papel do líder é construir pessoas, processos e cultura para que a empresa não precise da sua presença em cada detalhe.”
Governar a si mesmo antes de tentar controlar o ambiente
É nesse contexto que Rafael diferencia controle de autogoverno.
“Controle tenta dominar tudo ao redor. Autogoverno começa dominando a si mesmo.”
Para ele, existe uma diferença fundamental entre tentar controlar pessoas e circunstâncias e aprender a controlar as próprias escolhas, palavras, hábitos e reações.
“A pessoa controladora precisa que o ambiente, as pessoas e os acontecimentos obedeçam às suas expectativas para que ela se sinta segura. Quem desenvolve autogoverno entende que não controla tudo, mas pode governar suas escolhas, palavras, hábitos, reações e responsabilidades.”
Essa capacidade se torna ainda mais importante quando o empresário está submetido a pressão.
Rafael explica que é relativamente fácil falar sobre disciplina quando tudo está funcionando. O verdadeiro teste acontece quando surgem frustração, cansaço, conflitos, contrariedades e situações que despertam antigas reações.
“Nossas reações são uma das partes de nós que mais fogem do nosso próprio governo. O autogoverno aparece quando somos frustrados, pressionados, cansados, contrariados ou tentados a voltar para um comportamento antigo.”
Por isso, sua proposta não é criar empresários mais rígidos, mas líderes mais conscientes e responsáveis.
“Para mim, autogoverno não é rigidez. É liberdade com responsabilidade. É conseguir fazer o que precisa ser feito mesmo quando a emoção pede outra coisa, sem transformar disciplina em opressão sobre os outros.”
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Quando o resultado financeiro não conta toda a história
Outra preocupação presente na visão de Rafael está relacionada à forma como o mercado mede o sucesso.
Uma empresa pode apresentar bons resultados financeiros, crescer rapidamente e ter um empresário aparentemente bem-sucedido. Ainda assim, isso não significa necessariamente que exista uma liderança saudável por trás desses números.
“Resultado financeiro mede uma parte da competência; não mede o caráter inteiro de uma pessoa.”
Para avaliar o caráter de um líder, Rafael prefere observar aquilo que acontece longe dos holofotes.
“Eu observo o que acontece quando ninguém está vendo, como ela trata quem não pode lhe oferecer nada, se cumpre a palavra, como reage quando é contrariada e o que está disposta a fazer para ganhar.”
Essa preocupação ganha ainda mais relevância em um ambiente no qual empresários e profissionais são constantemente estimulados a construir uma imagem de sucesso nas redes sociais.
Rafael reconhece a importância do posicionamento, mas alerta para o risco de construir uma imagem maior do que a própria estrutura pessoal.
“A rede social consegue mostrar uma imagem muito bem construída, mas liderança é testada no cotidiano: na empresa, dentro de casa, nas decisões difíceis e na forma como alguém trata pessoas.”
Para ele, a questão não é deixar de aparecer, mas garantir que aquilo que é mostrado seja sustentado por uma realidade consistente.
“Eu não sou contra posicionamento ou exposição. Eles são importantes. O problema começa quando a imagem cresce mais rápido do que a estrutura. A excelência começa no invisível. Antes de parecer um líder, é preciso se tornar um.”
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Alta performance não pode significar perder a própria vida
Em uma sociedade que valoriza produtividade, velocidade e resultados, Rafael também questiona a romantização da alta performance.
Agenda cheia, poucas horas de sono, pressão constante e faturamento elevado podem ser interpretados como símbolos de sucesso. Mas, para ele, esses indicadores não contam toda a história.
“Existe uma cultura que celebra agenda cheia, poucas horas de sono, pressão constante e faturamento como se fossem provas absolutas de sucesso. Só que produtividade sem direção também pode ser uma forma sofisticada de prisão.”
A reflexão que propõe é mais ampla: não basta perguntar quanto o empresário está produzindo. É preciso compreender o que essa produção está construindo.
“A pergunta não é apenas ‘quanto você está produzindo?’, mas ‘o que essa produção está construindo?’”
Rafael acredita que é perfeitamente possível conquistar resultados financeiros e, ao mesmo tempo, perder elementos fundamentais da vida.
“É possível faturar muito e não ter liberdade, presença, saúde ou paz. Alta performance de verdade precisa produzir resultado sem transformar o próprio empresário no principal refém da empresa.”
Essa visão também aparece quando ele fala sobre o limite entre ambição saudável e uma busca por sucesso que começa a cobrar um preço alto demais.
“Quando aquilo que deveria servir à vida começa a consumir a vida, a ambição deixa de ser saudável. O problema é quando o empresário ganha mercado e perde saúde, ganha dinheiro e perde relacionamentos, constrói uma empresa admirada e não gosta mais da pessoa que se tornou.”
Para Rafael, crescer não deveria significar destruir os fundamentos que dão sentido ao próprio crescimento.
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O problema por trás do problema
Ao longo de sua experiência como mentor, Rafael percebeu que empresários frequentemente chegam em busca de soluções para problemas aparentemente objetivos.
Eles falam sobre vendas, equipe, organização, posicionamento ou faturamento. Mas, muitas vezes, a questão mais importante está em outro lugar.
“Normalmente ele chega falando de vendas, equipe, falta de organização, posicionamento ou faturamento. São problemas reais, mas muitas vezes são sintomas.”
Quando a conversa avança, surgem questões relacionadas à falta de clareza, indisciplina, centralização, dificuldade de posicionamento, medo de conversas difíceis ou ausência de uma rotina de liderança.
“É por isso que eu não gosto de tratar apenas o problema que aparece na superfície. Muitas vezes a empresa está pedindo uma estratégia, mas o empresário está precisando de uma mudança de comportamento.”
Essa percepção está diretamente ligada à atuação da Z-360, que, segundo Rafael, busca trabalhar o empresário de maneira mais ampla.
“Há situações em que o empresário pede ajuda para equipe ou vendas, mas, quando aprofundamos, percebemos que o maior trabalho está em disciplina, comunicação, identidade, posicionamento ou controle emocional.”
Da vida no fitness ao desenvolvimento de líderes
A trajetória de Rafael também ajuda a compreender a origem de alguns dos princípios que hoje orientam seu trabalho.
Ele passou cerca de dez anos no universo fitness, atuando como personal trainer e também como proprietário de box de CrossFit e academia. Encerrar esse ciclo para entrar definitivamente no desenvolvimento de empresários, liderança, mentoria e palestras foi uma decisão que exigiu coragem.
“Era uma área que eu conhecia, na qual tinha construído identidade, experiência, relacionamentos e segurança. Sair desse ambiente para entrar de vez no desenvolvimento de empresários, liderança, mentoria e palestras exigiu coragem.”
A mudança, porém, não significou abandonar os aprendizados acumulados ao longo daquela trajetória.
“Eu não abandonei tudo o que o fitness me ensinou. Disciplina, constância, performance, repetição e capacidade de suportar desconforto continuam presentes no meu trabalho. Eu apenas passei a aplicar esses princípios em um território maior: o desenvolvimento integral de líderes e empresários.”
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Verdade, sabedoria e responsabilidade
Entre os princípios que Rafael afirma defender atualmente estão a verdade e a sabedoria.
A verdade, segundo ele, exige coragem principalmente quando o confronto é com a própria realidade.
“A verdade exige coragem para enxergar a realidade como ela é, principalmente a verdade sobre nós mesmos.”
Já a sabedoria representa a capacidade de transformar conhecimento em decisão.
“Não basta ter conhecimento, força ou vontade. É preciso saber o que fazer, quando fazer, com quem caminhar e até quando não agir.”
Essa visão também aparece quando Rafael fala sobre responsabilidade pessoal.
Ele não ignora a influência de fatores externos. Mercado, economia, concorrência e pessoas podem, de fato, interferir nos resultados de uma empresa. Mas assumir responsabilidade não significa acreditar que tudo está sob seu controle.
“Responsabilidade pessoal não significa acreditar que tudo depende de você; significa assumir completamente aquilo que está sob sua responsabilidade.”
Para ele, existe uma diferença importante entre reconhecer aquilo que não se controla e utilizar circunstâncias externas como justificativa para não agir.
“Enquanto eu coloco toda a culpa fora, entrego também o poder de agir. A pergunta mais produtiva é: diante dessa realidade, o que cabe a mim fazer agora?”
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O que permanece quando todo o resto desaparece?
Talvez uma das provocações mais profundas feitas a Rafael durante a entrevista tenha sido imaginar que todos os seus conhecimentos empresariais fossem retirados e restasse apenas seu caráter.
A resposta revela muito da filosofia que sustenta seu trabalho.
“Eu acredito que sim, porque conhecimento pode ser reaprendido, dinheiro pode ser reconstruído e estratégias podem mudar. Caráter, disposição para trabalhar, capacidade de aprender, fé, disciplina e responsabilidade formam uma base que permite começar novamente.”
Para ele, reconstruir não significa necessariamente repetir exatamente aquilo que existia antes.
“Talvez eu não reconstruísse exatamente a mesma coisa, e isso nem seria o mais importante. O mais importante seria continuar sendo alguém capaz de construir.”
É uma ideia que desloca a definição de patrimônio. Mais importante do que aquilo que o empresário possui é aquilo em que ele se transforma ao longo da jornada.
“O patrimônio mais valioso de um líder não é somente aquilo que ele possui, mas aquilo em que ele se tornou.”
Uma empresa como espelho
Ao final da reflexão, Rafael retorna ao conceito que atravessa toda a sua visão de liderança: a empresa como um espelho do empresário.
Para ele, a cultura organizacional revela aquilo que o líder tolera. A equipe mostra como ele comunica e desenvolve pessoas. A organização revela suas prioridades. E os resultados apresentam parte das consequências das decisões tomadas ao longo do caminho.
Mas essa visão não deve ser utilizada para gerar culpa.
“O empresário deveria enxergar um espelho, não para carregar culpa por tudo, mas para assumir responsabilidade pelo que pode transformar.”
É nesse ponto que Governe a Si Mesmo ganha seu significado mais amplo. O livro não propõe apenas técnicas de produtividade ou organização. A proposta é provocar uma mudança na forma como o empresário se enxerga diante da própria vida e do próprio negócio.
Rafael resume essa provocação em uma pergunta:
“O que a minha empresa está me ensinando sobre mim?”
Para ele, quando o empresário consegue olhar para o negócio dessa maneira, deixa de tentar consertar apenas aquilo que está do lado de fora.
E talvez seja justamente aí que comece a verdadeira liderança: não quando o empresário aprende a controlar tudo ao seu redor, mas quando aprende a governar aquilo que está sob sua responsabilidade. A si mesmo.