Ravell Nava, fundador da Brl Educação. Foto: Divulgação
Com inadimplência empresarial em nível recorde e consumidores ainda endividados, empresários antecipam decisões sobre caixa, custos, produtividade e adaptação à reforma tributária.
O planejamento para 2027 já começa a entrar na agenda de empresas brasileiras. Em um cenário marcado por crédito restrito, inadimplência elevada e mudanças na estrutura tributária, empresários têm antecipado decisões que tradicionalmente ficariam para os últimos meses do ano.
A pressão ocorre tanto do lado das empresas quanto dos consumidores. Dados citados no setor apontam que mais de 8 milhões de empresas estavam inadimplentes em junho, o maior número da série histórica da Serasa Experian. Entre os consumidores, cerca de 77 milhões de brasileiros estavam negativados, segundo CNDL e SPC Brasil. O ambiente aumenta a pressão sobre o caixa das empresas e reduz a margem para decisões baseadas apenas no crescimento do faturamento. Nesse contexto, indicadores como rentabilidade, geração de caixa e produtividade passam a ganhar peso nas estratégias para o próximo ano.
Crescer não significa necessariamente ganhar mais
Para Ravell Nava, fundador da Brl Educação, esperar janeiro para começar a preparar a empresa para 2027 pode reduzir a capacidade de reação diante das mudanças do mercado.
“O empresário que esperar janeiro para pensar em 2027 normalmente chega atrasado. Os próximos meses precisam ser usados para fortalecer o caixa, revisar custos, aumentar a produtividade e preparar a empresa para um ambiente econômico que continuará exigindo eficiência”, afirma.
Na avaliação do empresário, uma das principais mudanças na gestão é a necessidade de olhar além do faturamento. Uma empresa pode aumentar as vendas e, ainda assim, terminar o período com menor disponibilidade financeira caso os custos avancem mais rapidamente ou as margens diminuam.
A combinação entre custo elevado do crédito e maior necessidade de eficiência também aparece no aumento dos pedidos de recuperação extrajudicial. Para empresas com estrutura financeira mais pressionada, a reorganização das contas passou a ser uma questão estratégica, e não apenas uma medida emergencial.
Reforma tributária entra no planejamento
A transição da reforma tributária é outro fator que deve influenciar decisões empresariais nos próximos meses. Mesmo com a implementação gradual das mudanças, a adaptação exige alterações em processos, sistemas, contratos e estratégias de precificação.
“A reforma tributária não começa quando a nova cobrança entra em vigor. Ela começa quando o empresário entende que precisa revisar processos, contratos, precificação e sistemas para reduzir riscos e aumentar a eficiência da operação”, diz Nava.
A antecipação dessas mudanças pode ser especialmente relevante para empresas que ainda não mapearam os impactos da transição sobre seus modelos de negócio. A revisão de processos e sistemas também pode revelar oportunidades para reduzir retrabalho e melhorar a gestão financeira.
Produtividade ganha importância
Com custos ainda elevados, ampliar equipes deixou de ser, em muitos casos, a primeira alternativa para sustentar o crescimento. A busca por produtividade passa a envolver automação, revisão de processos e acompanhamento mais próximo dos indicadores operacionais.
“Hoje, indicadores como geração de caixa, margem operacional, produtividade comercial e rentabilidade têm um peso muito maior nas decisões estratégicas do que apenas o volume de vendas. Quem acompanha esses números consegue corrigir a rota antes que o problema apareça no resultado financeiro”, afirma.
A inteligência artificial também passou a fazer parte desse processo. A tecnologia, no entanto, não elimina problemas estruturais de gestão, segundo Nava.
“Não existe ferramenta capaz de resolver problemas de gestão. A inteligência artificial acelera empresas organizadas, mas também potencializa erros quando os processos continuam desestruturados”, destaca.
Segundo semestre como período de preparação
A discussão sobre gestão financeira, produtividade, vendas e liderança também aparece nas formações promovidas pela Brl Educação. Em agosto, a empresa programou a realização da formação Brl Salus, voltada a donos de clínicas, em Brasília, nos dias 21, 22 e 23, e da Brl Focus, direcionada a gestão e estratégia, nos dias 28, 29 e 30. A agenda inclui ainda o 3º Encontro do Match, previsto para 25 de agosto. Segundo Nava, dúvidas relacionadas à organização financeira, aumento das vendas e gestão de equipes aparecem entre os temas recorrentes nos encontros com empresários.
Para as empresas que pretendem chegar a 2027 em uma posição financeira mais sólida, a recomendação é utilizar o segundo semestre para revisar decisões tomadas no início do ano e estruturar o próximo ciclo. Entre as medidas estão a revisão de metas, o acompanhamento do fluxo de caixa, a análise das margens por produto e cliente, a preparação para a reforma tributária, a busca por ganhos de produtividade e a renegociação de custos e contratos.
A proposta é chegar ao novo ano com orçamento, indicadores, prioridades de investimento e fluxo de caixa definidos. Em um ambiente de maior pressão sobre custos, crédito e consumo, a capacidade de planejamento pode se tornar um dos principais fatores para determinar quais empresas estarão preparadas para crescer de forma sustentável em 2027.


