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Para 77% dos brasileiros, ter tempo para si virou privilégio e muda hábitos de consumo

Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam. Foto: Divulgação/ Montagem feita pela Você & Negócios

Pesquisa da Casa Mundo Latam mostra como cansaço, preocupação financeira e busca por conveniência estão levando consumidores a pagar mais por conforto, segurança, tempo e experiências com menos atritos.

A sensação de que falta tempo para si próprio já influencia a forma como os brasileiros consomem. Segundo a pesquisa “Status Quo do Me Mimei”, da Casa Mundo Latam, 77% dos entrevistados no país consideram que ter uma vida com tempo para si se tornou um privilégio. O levantamento ouviu 524 pessoas no Brasil, México, Colômbia e Argentina, em julho de 2026.

Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam. Foto: Divulgação

O estudo aponta para uma mudança na relação com conforto e conveniência. Pedir uma comida diferente depois de um dia difícil, pagar por uma entrega mais rápida ou escolher um serviço que reduza esperas deixaram de ser apenas decisões pontuais. Para parte dos consumidores, essas escolhas começam a funcionar como mecanismos de compensação diante de uma rotina marcada por cansaço e sobrecarga.

Quando o “eu mereço” entra na rotina

É nesse cenário que ganha espaço a chamada economia do “eu mereço”. A lógica parte de uma recompensa por um dia difícil, mas pode se tornar recorrente à medida que o consumo passa a ser associado ao alívio do estresse.

“Existe uma diferença entre escolher um mimo em determinados momentos e transformar essa recompensa em uma necessidade diária. O problema não está em querer conforto ou aproveitar uma experiência melhor. Ele aparece quando o cansaço se torna tão constante que consumir passa a ser uma das únicas formas disponíveis de sentir alívio”, afirma Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam.

A contradição está no papel atribuído ao dinheiro. A preocupação financeira aparece entre os fatores que mais pesam na rotina dos entrevistados, mas os recursos financeiros também são usados para comprar conveniência e reduzir o desgaste cotidiano.

O novo significado do consumo premium

A pesquisa também indica uma mudança na percepção do que é considerado premium. A exclusividade e o status perdem espaço para atributos relacionados à praticidade e à redução de problemas.

Entre os brasileiros que pagam mais por uma experiência melhor, 55% buscam conforto, enquanto 51% querem evitar problemas, 49% procuram mais segurança e 37% desejam ganhar tempo. A exclusividade aparece em último lugar, citada por 18% dos entrevistados.

A percepção de que serviços básicos podem não ser suficientes também é significativa. Para 52% dos brasileiros, experiências consideradas básicas funcionam mal justamente para estimular a contratação de versões pagas ou premium. Considerando também quem concorda parcialmente com essa afirmação, o percentual chega a 94%.

“Durante muito tempo, o premium foi associado à distinção. Pagava-se mais para acessar algo exclusivo ou demonstrar determinado status. Hoje cresce outra lógica: pagar para evitar problemas. A fila, a espera, o atraso e o imprevisto passam a ser tratados como situações que podem ser evitadas por quem possui recursos”, analisa Adriana.

Saúde lidera gastos para evitar estresse

A disposição para pagar mais em troca de menos espera ou imprevistos aparece principalmente em áreas diretamente relacionadas à qualidade de vida.

Entre os brasileiros, 61% afirmam pagar mais para evitar estresse, espera ou imprevistos na saúde. Comida aparece em seguida, com 44%, acompanhada por lazer, com 37%, e transporte por aplicativo, com 31%.

O comportamento, porém, não representa necessariamente uma busca por luxo. Em determinados casos, pagar mais pode significar acesso a condições consideradas básicas, como atendimento médico em prazo razoável, alimentação de melhor qualidade ou maior segurança.

A questão levantada pelo estudo está na fronteira entre essa busca por qualidade de vida e a expectativa de eliminar qualquer inconveniente da rotina.

“Uma coisa é pagar mais para conseguir um atendimento de saúde em um prazo razoável ou ter acesso a uma alimentação melhor. Outra é construir uma rotina na qual qualquer fila, conversa, espera ou mudança de planos se torna insuportável”, explica Adriana.

Conveniência também muda a relação com o cotidiano

A busca por experiências rápidas, personalizadas e previsíveis pode alterar ainda a tolerância dos consumidores a situações que envolvem espera, conversa ou adaptação.

Serviços que permitem reduzir filas, evitar interações ou receber produtos rapidamente oferecem praticidade, mas também contribuem para uma expectativa de maior controle sobre as experiências cotidianas.

“O mimo eventual pode representar prazer, recompensa e cuidado. A armadilha aparece quando toda situação precisa ser otimizada, personalizada ou transformada em uma experiência premium”, afirma Adriana.

Nesse contexto, o consumo deixa de estar relacionado apenas ao acesso a produtos e serviços e passa a funcionar como uma ferramenta para administrar o próprio tempo e reduzir fricções.

A pesquisa aponta, portanto, para uma transformação mais ampla: em uma sociedade marcada pelo cansaço, conforto e conveniência ganham peso nas decisões de compra. O desafio para consumidores e empresas está em compreender até que ponto esse movimento representa uma busca legítima por qualidade de vida e quando começa a criar uma expectativa de que toda experiência precisa ser rápida, personalizada e livre de imprevistos.

Tags: Casa Mundo Latam, comportamento do consumidor, consumo, consumo premium, conveniência, economia do “eu mereço”, hábitos de consumo, mercado, tendências de consumo