Tecnologia da ConstruCode usa dados de 420 mil falhas para orientar vistorias de imóveis e identificar problemas antes da entrega das chaves
O uso de óculos inteligentes começa a ganhar espaço em uma etapa pouco visível da construção civil, mas que pode representar um custo relevante para as construtoras: o pós-obra. Segundo a ConstruCode, esse período, que envolve chamados de assistência, correções e reparos após a entrega dos imóveis, representa em média cerca de 5% do valor de construção de um empreendimento.
A construtech desenvolveu uma solução que combina os Óculos Meta com seu módulo de vistorias Vistora para padronizar a inspeção de imóveis antes da entrega. Segundo resultados apresentados pela empresa, a tecnologia reduziu entre 40% e 60% os custos relacionados ao pós-obra nos primeiros casos analisados, chegando a 80% em algumas situações.
Batizada de VISION, a solução utiliza dados históricos de ocorrências para orientar o profissional durante a vistoria. Por meio de comandos de voz, os óculos indicam os pontos que precisam ser verificados e direcionam a atenção para problemas recorrentes em cada item do imóvel.
Quando uma não conformidade é identificada, o vistoriador pode confirmá-la pela própria haste dos óculos. O sistema registra a ocorrência, captura imagens e associa o problema ao item correspondente. Ao mesmo tempo, os óculos gravam em vídeo o percurso realizado durante a inspeção.
Base de dados reúne 420 mil anomalias
A tecnologia foi desenvolvida a partir de dados acumulados pela ConstruCode desde 2023. De acordo com a empresa, foram analisadas informações de mais de 300 construtoras de seu portfólio, resultando em aproximadamente 420 mil anomalias registradas na plataforma.
Os problemas foram distribuídos em 77 categorias e mais de mil tipos de ocorrência. Segundo o levantamento, sete categorias concentram 84% das falhas encontradas nas vistorias.
Pintura, esquadrias de madeira e alumínio e revestimentos respondem, juntas, por 62% das ocorrências identificadas. O levantamento também apontou limitações nos checklists tradicionais: 21,4% dos problemas encontrados em campo não estavam previstos nos itens de inspeção. Em instalações de gás, esse índice chega a 47%; em hidráulica, a 42%.
“Ou seja, no modelo tradicional de inspeção, metade dos problemas reais ainda não são nem categorizados”, afirma Diego Mendes, CEO da ConstruCode.
Outro dado utilizado pela empresa para estruturar o protocolo é a concentração das falhas em determinados pontos do imóvel. Segundo Mendes, 60% dos problemas identificados estão nas paredes e se concentram em menos de cinco categorias.
Tecnologia busca reduzir diferenças entre vistoriadores
Um dos problemas que a solução pretende enfrentar é a variação entre avaliações realizadas por diferentes profissionais. A hipótese da empresa é que a experiência individual e a falta de padronização podem fazer com que o mesmo problema seja classificado de maneiras distintas.
Em uma demonstração realizada pela ConstruCode, dois profissionais vistoriaram o mesmo imóvel. O primeiro percorreu 18% da unidade em aproximadamente quatro minutos e identificou duas não conformidades. O segundo levou 34 minutos, completou o roteiro e encontrou 14 problemas.
“Uma mesma parede, com o mesmo problema, pode ser interpretada por pessoas diferentes de formas diferentes. O que para um é infiltração, outro marca como manchas na pintura e um terceiro registra como problema de acabamento. Assim não se descobre à causa raiz e, sem ela, não há aprendizado”, afirma Mendes.
Com os óculos, o vistoriador inicia o processo a partir de um QR Code instalado na porta do apartamento. O sistema identifica o roteiro daquele ambiente e passa a orientar, por áudio, os itens que devem ser avaliados.
O celular continua sendo utilizado como suporte para transmissão de informações, mas permanece no bolso durante a maior parte da inspeção. Segundo a empresa, os óculos têm autonomia de quase 10 horas de uso contínuo.
Registro em vídeo amplia documentação da entrega
Além da identificação de problemas, a solução cria um registro visual da vistoria. Fotos e vídeos são associados aos dados coletados durante o processo e utilizados na geração dos relatórios.
Segundo a ConstruCode, isso permite que a construtora tenha, além do termo de vistoria, um histórico visual do percurso realizado pelo profissional e dos itens avaliados.
“Agora o termo de inspeção não vai mais sozinho. Ele vai acompanhado de um book visual, em fotos e vídeos, que registra tudo o que foi analisado e comprova que o vistoriador percorreu todo o roteiro e realizou os testes de comissionamento. O construtor consegue auditar a qualidade do imóvel remotamente, sem a necessidade de uma nova visita no local”, diz Mendes.
A empresa afirma que a tecnologia foi escolhida após testes com outros formatos, incluindo humanoides e robôs quadrúpedes. O desenvolvimento ocorreu dentro do ConstruCode Labs, programa interno de inovação da companhia.
Próximo passo é levar tecnologia para dentro da obra
A estratégia agora é utilizar a mesma metodologia antes da etapa de entrega. A ConstruCode testa a aplicação da tecnologia nas Fichas de Verificação de Serviço, usadas durante a execução das obras.
A intenção é identificar padrões de falhas ainda durante a construção e atuar de maneira preventiva, reduzindo a quantidade de problemas que chegam à vistoria final e, consequentemente, ao pós-obra.
“O VISION gera métricas de previsibilidade riquíssimas, levando a atenção do profissional aos pontos de concentração histórica de problemas. O objetivo é um protocolo de evolução constante inédito na construção civil que tangibiliza o valor de uma gestão da qualidade baseada em dados”, conclui Mendes.
Foto: Divulgação


