Consultora, escritora e palestrante transforma experiências pessoais e profissionais em uma reflexão sobre liderança, identidade, saúde mental e a construção de uma vida com sentido
Por trás da profissional, da escritora, da palestrante e da mulher que hoje fala sobre identidade e desenvolvimento, existe também uma mãe que encontrou na família uma das maiores fontes de motivação para continuar evoluindo. Lorena Burgos é mãe de Ravi e Benjamin e também tem um enteado, Pedro. Para ela, a maternidade vai muito além de mais um papel entre tantos que desempenha. É uma experiência que a incentiva diariamente a buscar uma versão melhor de si mesma.
São os filhos que estão entre suas principais motivações para ser uma pessoa melhor a cada dia. Essa perspectiva ajuda a compreender uma trajetória marcada pela busca por conhecimento, desenvolvimento, comunicação e transformação.
“Por trás dos títulos existe uma mulher profundamente comprometida com a vida e que fez consigo mesma o maior acordo da sua jornada: ser feliz.”
Para Lorena, felicidade não significa ausência de desafios, mas a decisão consciente de não passar pela vida apenas cumprindo obrigações, expectativas e papéis.
Uma trajetória que não cabe em um único papel

Lorena se define como uma mulher de muitas versões. Mãe, esposa, profissional, mulher de fé, escritora, líder e aprendiz, ela construiu sua trajetória a partir de experiências que envolveram comunicação, liderança, desenvolvimento e educação. Essa multiplicidade, porém, não significa necessariamente estar presa aos papéis que a vida apresenta.
Durante muito tempo, Lorena se reconheceu principalmente pelas funções que exercia e pelas responsabilidades que carregava. Sabia ser profissional, mãe, esposa, líder, aquela que resolvia, acolhia e seguia em frente. Até que uma pergunta passou a provocar uma mudança profunda: quem é Lorena quando ninguém está precisando de alguma coisa dela?
A reflexão fez com que ela percebesse que conhecia profundamente suas obrigações, mas precisava voltar a conhecer seus desejos, limites e sua própria identidade. Foi desse processo que nasceu uma das ideias centrais de A Mulher Além dos Papéis: é possível amar os papéis que fazem parte da vida sem desaparecer dentro deles.
A maternidade como força de transformação
Na história de Lorena, a maternidade ocupa um lugar especial. Ravi, Benjamin e Pedro fazem parte de sua vida e também representam uma motivação para continuar aprendendo, evoluindo e buscando ser uma pessoa melhor.
Essa dimensão pessoal ajuda a compreender que o propósito defendido por Lorena não está separado da vida cotidiana. Carreira, família, responsabilidades e realização pessoal podem coexistir, desde que nenhum desses elementos apague completamente a identidade individual. É justamente essa perspectiva que atravessa seu trabalho e seu livro. Não se trata de abandonar responsabilidades ou deixar de exercer os papéis que fazem parte da vida, mas de compreender que existe uma mulher inteira antes, durante e depois deles.
A força de não precisar ser invencível
Entre os papéis que mais demorou para questionar está o da mulher que precisa ser forte o tempo inteiro. Por muito tempo, força significava suportar pressão, resolver problemas, cuidar, continuar funcionando e não demonstrar cansaço. A maturidade trouxe outra compreensão. Para Lorena, força também é reconhecer limites, pedir ajuda, dizer não, admitir que algo não está bem e fazer escolhas coerentes consigo mesma.
“Existe muita coragem em se permitir ser humana.”
Essa visão também influencia sua forma de enxergar a liderança. Para ela, competência não deveria ser confundida com invulnerabilidade.
Liderança não é uma performance de perfeição
No ambiente profissional, Lorena observa que ainda existe uma visão de liderança baseada na ideia de que o líder precisa saber tudo, resolver tudo e nunca demonstrar dúvida. Para ela, liderança não é uma performance de perfeição.
Um líder maduro pode reconhecer um erro, admitir que não sabe algo, ouvir uma contribuição, pedir ajuda e rever uma decisão. Isso não elimina autoridade. Pode, ao contrário, fortalecer a confiança. Lorena defende a chamada vulnerabilidade responsável: reconhecer limites sem transferir para a equipe a responsabilidade pelas próprias emoções.
Nesse contexto, entra também a segurança psicológica. Equipes precisam ter espaço para perguntar, contribuir, discordar e apontar problemas sem medo de humilhação ou retaliação.
“Liderança forte não é a que silencia a equipe. É a que cria condições para que as pessoas entreguem o melhor com responsabilidade.”
O desafio de reconhecer o próprio valor
A trajetória profissional também ensinou a Lorena que competência, sozinha, nem sempre garante reconhecimento. Durante muitos anos, esteve concentrada em entregar resultados, construir processos, resolver problemas, desenvolver pessoas e melhorar resultados. Em determinado momento, percebeu que também precisava aprender a comunicar seu valor, defender suas ideias e ocupar espaços.
Foi quando passou a enxergar o posicionamento como uma ferramenta de trabalho. Para ela, especialmente entre mulheres, existe uma aprendizagem importante nesse processo: reconhecer o próprio valor não significa diminuir ninguém. Também não é necessário diminuir a si mesma para tornar sua presença mais confortável para os outros.
Quando a comunicação se transforma em propósito
A relação de Lorena com a comunicação ganhou outro significado quando ela começou a perceber que experiências que considerava particulares encontravam eco em outras mulheres. Uma cobrança, um medo, uma experiência ou um recomeço compartilhado poderia fazer outra pessoa pensar: “Eu também me sinto assim”.
Foi quando percebeu que sua voz poderia se transformar em ponte. Hoje, seu objetivo não é simplesmente falar para ser ouvida. É comunicar para gerar consciência. Se uma fala, um texto, uma palestra ou um livro consegue fazer alguém se enxergar de maneira diferente e perceber que pode construir outro caminho, então a comunicação cumpre seu papel transformador.
O livro que questiona a mulher por trás dos papéis

A Mulher Além dos Papéis nasce justamente dessa experiência de questionamento e reconstrução. O livro aborda identidade, autoestima, leveza e saúde mental, mas parte de uma experiência que Lorena considera profundamente pessoal: o processo de descobrir quem somos depois das mudanças, conquistas, perdas e recomeços.
“Podemos passar anos nos preparando para exercer profissões e papéis, mas raramente somos ensinadas a nos conhecer com a mesma profundidade.”
Por isso, ela não apresenta o livro como uma obra escrita a partir da perfeição. É uma construção baseada em experiência, estudo, reflexão e reconstrução. Para Lorena, autoconhecimento também é educação.

A mulher que tenta dar conta de tudo
Um dos pontos centrais da reflexão de Lorena está na cobrança para que as mulheres sejam profissionais bem-sucedidas, mães, companheiras, filhas, amigas e ainda estejam emocionalmente bem. Segundo ela, essa cobrança possui raízes culturais e sociais profundas. A mulher conquistou espaços importantes no trabalho e na vida pública, mas muitas vezes acumulou novas responsabilidades sem que as antigas fossem verdadeiramente redistribuídas.
O resultado é uma rotina em que trabalhar, liderar, empreender, cuidar da família, administrar a casa e sustentar vínculos precisam coexistir com a expectativa de permanecer disponível e equilibrada. Lorena também questiona a romantização da sobrecarga.
“Precisamos substituir a obrigação de dar conta de tudo pela capacidade de estabelecer prioridades, limites, acordos e redes de apoio. Autonomia não é fazer tudo sozinha.”
Quando uma mulher deixa de se incluir nas próprias escolhas
Para Lorena, o afastamento de si mesma pode acontecer silenciosamente. A mulher continua trabalhando, cuidando, entregando, resolvendo e sorrindo, mas pode perder gradualmente o contato com aquilo de que gosta, com seus desejos e até com seus próprios limites.
Nesse contexto, autocuidado não significa deixar de amar ou cuidar dos outros. Significa compreender que a própria mulher também precisa estar incluída na sua lista de prioridades. Autocuidado, nessa perspectiva, não é luxo nem egoísmo. É responsabilidade consigo mesma e com a vida que deseja sustentar.
Autoestima, autoconfiança e a pressão por performance
Lorena também diferencia autoestima de autoconfiança. Enquanto a autoconfiança está relacionada à percepção de capacidade, a autoestima está ligada à percepção de valor. A diferença se torna ainda mais importante em uma sociedade orientada pela performance. Quando uma mulher recebe reconhecimento apenas pelo que entrega, pode começar a acreditar que seu valor depende do resultado. Para Lorena, não é assim. É possível fracassar em uma tarefa sem transformar esse fracasso em uma definição sobre quem se é.
Descansar também faz parte do sucesso
A mesma lógica aparece quando Lorena fala sobre leveza. Muitas mulheres foram ensinadas a associar valor à produtividade. Parar pode gerar culpa porque sempre parece existir alguém ou alguma responsabilidade esperando por elas.
O problema é que a lista nunca termina. Por isso, Lorena defende que descanso não seja tratado como prêmio depois da exaustão. Ele precisa fazer parte de uma vida produtiva e sustentável.
“Leveza não é ausência de responsabilidade; é aprender a carregar apenas aquilo que realmente nos pertence.”
Uma nova definição de sucesso
A própria ideia de sucesso também mudou para Lorena. Ela precisou desconstruir a crença de que sucesso significava suportar cada vez mais. Hoje, sua definição envolve autonomia, saúde emocional, relações significativas, aprendizado contínuo e liberdade para reconstruir caminhos. A carreira continua sendo importante, assim como os resultados. Mas eles precisam ser sustentáveis.
“Eu não quero uma carreira que me faça perder a pessoa que estou tentando me tornar.”
Alta performance também precisa ser humana
Como consultora empresarial, Lorena acompanha pessoas e organizações e identifica comportamentos de liderança que podem prejudicar a saúde emocional das equipes. Comunicação agressiva, microgestão, falta de clareza, humilhação disfarçada de cobrança e cultura do medo estão entre os principais problemas. Ela, porém, faz questão de diferenciar saúde mental de ausência de cobrança. Empresas precisam de metas, produtividade, acompanhamento e responsabilização. O limite está entre pressão e opressão.
“Cobrar uma entrega é gestão; constranger uma pessoa não é. Dar feedback é gestão; desqualificar alguém não é.”
Sua defesa é por uma alta performance consciente, em que resultado e saúde emocional não sejam tratados como adversários.
Antes do adoecimento
Para Lorena, a discussão sobre saúde mental precisa acontecer antes de alguém chegar ao limite. Prevenção, educação emocional, qualidade das relações, ambientes de trabalho, limites e construção de identidade precisam fazer parte dessa conversa. A saúde mental não está separada da vida real.
Está presente na maneira como as pessoas trabalham, se relacionam, educam, lideram e se cobram. Quanto mais conhecimento uma pessoa possui para compreender aquilo que vive, maior pode ser sua capacidade de fazer escolhas conscientes e procurar suporte quando necessário.
Voltar para si
A mulher que Lorena deseja alcançar com A Mulher Além dos Papéis não é aquela que precisa necessariamente destruir tudo e começar novamente. É aquela que consegue voltar para si. Ela gostaria que a leitora terminasse o livro olhando para si com menos julgamento e mais curiosidade. Que percebesse que pode continuar amando sua família, sua carreira e suas escolhas sem deixar de existir como indivíduo.
“Reencontro não precisa começar com uma revolução. Às vezes começa com uma pequena escolha feita em favor de si mesma.”
E é nesse ponto que carreira, maternidade e propósito se encontram na história de Lorena. Ravi, Benjamin e Pedro fazem parte daquilo que a impulsiona a crescer, aprender e buscar ser melhor a cada dia. A maternidade, em sua trajetória, não aparece apenas como mais um papel a ser desempenhado, mas como uma experiência que também contribui para sua transformação pessoal e para a pessoa que ela deseja se tornar.
No fim, A Mulher Além dos Papéis é um convite para compreender que é possível ser mãe, profissional, esposa, filha, líder e tantas outras coisas sem deixar de existir como indivíduo. Porque, antes, durante e depois de todos esses papéis, existe uma mulher. E essa mulher também merece ser conhecida, respeitada, educada, cuidada e escolhida.


