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Negócios

IA avança, mas confiança e conexão humana viram ativos estratégicos para as marcas

Primeira edição do SP2B reuniu executivos, especialistas e empreendedores em São Paulo e mostrou como inteligência artificial, dados, cultura, credibilidade e experiências presenciais estão redesenhando estratégias de marca e negócios

A inteligência artificial dominou boa parte das discussões do SP2B – São Paulo Beyond Business, mas o principal recado para empresas e marcas foi menos tecnológico do que parece. Em um ambiente de automação crescente, produção acelerada de conteúdo e interações cada vez mais mediadas por plataformas, confiança, relações humanas e experiências relevantes tendem a ganhar ainda mais valor estratégico.

Realizado entre os dias 9 e 16 de agosto, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, o festival reuniu executivos, especialistas, empreendedores e profissionais da economia criativa para discutir inovação, cultura e transformação dos negócios.

Segundo a organização, a primeira edição contou com mais de 2 mil palestrantes e mais de 20 palcos. Ao longo da programação, temas como inteligência artificial, credibilidade, uso de dados, comportamento, influência e experiências presenciais apareceram de forma recorrente.

Para as empresas, as discussões ajudam a desenhar um cenário no qual produtividade tecnológica e capacidade humana precisam caminhar juntas.

Tecnologia aumenta produtividade, mas não substitui vínculo

Ferramentas de inteligência artificial já ajudam empresas a acelerar análises, produzir conteúdo, automatizar processos e personalizar interações.

O ganho de eficiência, porém, não significa automaticamente ganho de relevância.

Durante a abertura do SP2B, a psicoterapeuta Esther Perel abordou os impactos da tecnologia sobre as relações humanas e chamou atenção para o risco de uma sociedade com grande volume de interações, mas vínculos cada vez menos profundos.

A discussão também apareceu em análises sobre o futuro dos encontros presenciais. Hugh Forrest, ex-presidente do SXSW e consultor do SP2B, destacou o potencial de valorização das experiências físicas à medida que mais relações migram para ambientes digitais.

Para Nani Oliveira, COO da 11ag, agência especializada em live marketing e experiências de marca, o momento exige equilíbrio.

“Existe um paradoxo interessante acontecendo. Nunca tivemos tanta tecnologia disponível para entender comportamentos, produzir conteúdo e ampliar pontos de contato, mas isso não necessariamente significa criar relações mais fortes”, afirma.

Segundo ela, o desafio das empresas está em utilizar tecnologia sem eliminar elementos como contexto, emoção, confiança e conexão entre pessoas.

1. Quanto mais IA, maior pode ser o valor da experiência humana

A popularização da inteligência artificial muda a lógica competitiva.

Quando diversas empresas passam a ter acesso às mesmas categorias de ferramentas, simplesmente utilizar IA deixa de ser um diferencial relevante. A vantagem passa a estar na forma como a tecnologia é incorporada à operação e à experiência do consumidor.

Isso significa usar automação para eliminar tarefas repetitivas, aumentar produtividade e melhorar decisões, mas preservar pontos de contato nos quais a interação humana realmente acrescenta valor.

Na prática, eficiência não precisa significar ausência de pessoas.

Para marcas, o desafio será identificar quais etapas da jornada podem ser automatizadas sem prejudicar percepção de qualidade, confiança ou relacionamento.

2. Confiança pode valer mais do que audiência

Outro tema recorrente do festival foi a crise de credibilidade provocada pelo excesso de informação e pela facilidade de criação de conteúdos artificiais.

Drauzio Varella discutiu os impactos da desinformação e das novas ferramentas de inteligência artificial na produção de materiais falsos. Em outra participação, William Bonner colocou em debate a diferença entre influência baseada apenas em atenção e influência sustentada por responsabilidade e credibilidade.

A discussão afeta diretamente as estratégias de comunicação das empresas.

Durante anos, alcance, impressões, visualizações e número de seguidores dominaram parte das decisões de marketing. Esses indicadores continuam importantes, mas passam a dividir espaço com métricas menos imediatas, como confiança, autoridade e associação positiva.

Em um ambiente no qual produzir conteúdo se tornou mais rápido e barato, construir reputação pode se tornar uma barreira competitiva mais difícil de replicar.

3. Dados próprios viram patrimônio estratégico

A expansão da inteligência artificial também aumenta a importância dos dados que alimentam essas tecnologias.

Ferramentas semelhantes podem ser contratadas por concorrentes. O mesmo não acontece necessariamente com informações construídas ao longo de anos de relacionamento com clientes.

Dados próprios sobre comportamento, histórico de compras, preferências, participação em eventos, atendimento e interações digitais podem ampliar a capacidade de uma empresa de tomar decisões mais precisas.

Isso transforma canais de relacionamento, comunidades, plataformas e experiências de marca em fontes não apenas de comunicação, mas também de inteligência de negócios.

Com governança adequada, dados proprietários podem ajudar empresas a desenvolver produtos, melhorar campanhas, identificar padrões de comportamento e aumentar a eficiência de investimentos em marketing.

4. Marcas precisam acrescentar valor à cultura

Música, entretenimento, tecnologia, esporte e comportamento dividiram espaço no SP2B com discussões tradicionais sobre inovação e empreendedorismo.

Essa aproximação reforça a tentativa das empresas de participar mais ativamente de movimentos culturais.

Mas ocupar um espaço cultural não significa automaticamente fazer parte dele.

Patrocínios, ativações e associações com determinados comportamentos podem gerar visibilidade, mas a relevância depende da capacidade de compreender o contexto no qual a empresa está entrando.

Para o marketing, isso muda uma pergunta estratégica.

Em vez de apenas definir onde a marca deve aparecer, organizações precisam avaliar o que sua presença oferece para aquele público.

A diferença pode determinar se uma ação será percebida como participação legítima ou apenas como publicidade inserida em um ambiente cultural.

5. Experiências presenciais podem se tornar mais valiosas

Existe uma aparente contradição no avanço da digitalização.

Ao mesmo tempo em que reuniões, compras, atendimento, entretenimento e trabalho migram para plataformas digitais, eventos presenciais continuam atraindo públicos interessados em relacionamento e troca.

O próprio SP2B exemplifica esse movimento.

Enquanto parte relevante da programação discutia IA, agentes autônomos e novas interfaces digitais, milhares de participantes se deslocaram até o Parque Ibirapuera para acompanhar palestras, encontros e atividades presenciais.

Para as empresas, isso reforça o papel da arquitetura e do desenho das experiências.

Espaços corporativos, eventos, lojas, feiras e ativações precisam ser planejados de maneira mais eficiente, oferecendo algo que uma tela dificilmente consegue reproduzir: interação espontânea, pertencimento, descoberta e memória coletiva.

A arquitetura deixa, portanto, de funcionar apenas como cenário e passa a integrar a estratégia de relacionamento da marca.

Eficiência tecnológica e experiência humana entram na mesma estratégia

As discussões do SP2B indicam que o futuro da construção de marcas provavelmente não será definido pela escolha entre tecnologia ou relações humanas.

A tendência é de combinação.

Inteligência artificial pode ampliar produtividade, melhorar análises e reduzir custos operacionais. Dados podem aumentar precisão. Ambientes físicos podem gerar relacionamento. E confiança pode determinar se uma empresa consegue transformar atenção em vínculo de longo prazo.

Nesse cenário, eficiência deixa de significar apenas fazer mais em menos tempo.

Para marcas e empresas, ser eficiente também será utilizar tecnologia onde ela gera valor, preservar interação humana onde ela é necessária e desenvolver experiências capazes de construir relações que algoritmos, isoladamente, ainda não conseguem reproduzir.

 

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