Aos 20 anos, cofundador da Overlay transforma uma habilidade desenvolvida ainda na adolescência em negócios, passou pela Link School of Business e agora aposta em tecnologia para transformar conexões entre empresas em oportunidades de receita.
“Eu sou a pessoa que junta gente. Só que hoje eu faço isso com software.”
A habilidade que virou negócio
Aos 20 anos, Gabriel Miaguti já construiu uma trajetória marcada por empreendedorismo, relacionamento e inovação. Natural de Santo André, o jovem começou a fazer dinheiro por conta própria ainda na adolescência, quando passou a organizar matinês para estudantes de São Paulo. O que parecia apenas uma maneira de bancar os próprios rolês acabou revelando uma habilidade que se tornaria central em sua carreira: conectar pessoas.
“Foi ali que eu descobri que gostava de vender e, principalmente, que gostava de juntar gente”, conta.
Em 2022, Gabriel passou um ano nos Estados Unidos, onde concluiu o high school americano. O período ampliou sua visão sobre empreendedorismo e fez com que ele voltasse ao Brasil com a certeza de que não seguiria um caminho profissional tradicional.
A Link School e uma nova visão de futuro
Depois do intercâmbio, Gabriel chegou a considerar a aviação como carreira. Fez um voo teste em um aeroclube, gostou da experiência, mas percebeu que aquele ambiente não correspondia ao que buscava.
“Eu preciso de pessoas. Preciso conversar, conectar, negociar. Aquilo simplesmente não era eu.”
Foi então que conheceu a Link School of Business, instituição que ele considera uma das decisões mais determinantes de sua vida. Mais do que o conteúdo acadêmico, Gabriel destaca o ecossistema criado pela faculdade, a proximidade com empresários e professores que atuam diretamente no mercado e a convivência com outros jovens interessados em construir negócios.
Foi na Link que Gabriel conheceu Jimmy, que posteriormente se tornou seu sócio na The Six e continua ao seu lado na Overlay. A experiência internacional também é apontada por Gabriel como um dos diferenciais da instituição. A Link promove viagens relacionadas aos conteúdos estudados e mantém os chamados Link Lodges em Palo Alto, Boston e Madrid. Hoje, Gabriel está morando em Palo Alto, no Vale do Silício.
Quando seis desconhecidos se sentam à mesma mesa
Foi ao lado de Jimmy que Gabriel criou a The Six. A ideia nasceu de maneira bastante diferente do modelo tradicional de startup. Jimmy já trabalhava como private chef e produzia conteúdo de gastronomia. A casa dele acabou servindo como palco para o primeiro jantar, que reunia seis desconhecidos vendados.
Sem enxergar quem estava ao redor da mesa, os participantes eram estimulados a conversar de maneira mais espontânea. A experiência eliminava julgamentos e quebrava a tradicional conversa inicial baseada em profissão, cargo ou status.
Logo os sócios perceberam que havia algo muito maior por trás daquela experiência. As pessoas não estavam necessariamente interessadas na comida. Elas estavam procurando conexão. Muitos participantes haviam acabado de mudar de cidade ou encerrado ciclos profissionais, acadêmicos ou pessoais e queriam conhecer gente nova.
Para tornar o modelo escalável, Gabriel e os sócios desenvolveram uma inteligência de match. Os participantes forneciam informações sobre interesses, profissão, idade e outros critérios, e a equipe criava um score de conectividade para definir quais pessoas deveriam compartilhar a mesma mesa.
O resultado foi uma experiência que ultrapassou 10 mil jantares realizados em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.
Quando o networking virou negócio
Foi dentro da The Six que Gabriel percebeu que aquela lógica poderia ir muito além dos encontros entre pessoas. Empresas como XP e Asaas procuraram a empresa porque enfrentavam dificuldades com a prospecção fria e buscavam uma maneira mais eficiente de chegar a potenciais clientes por meio de relacionamentos e apresentações.
A equipe passou então a colocar empresas e leads em contato a partir da rede construída pela The Six. O modelo funcionou e revelou uma oportunidade ainda maior. A pergunta passou a ser: e se fosse possível transformar toda aquela lógica de conexão em software?
Foi dessa pergunta que nasceu a Overlay.
A startup que quer transformar conexões em receita
A Overlay é uma startup B2B baseada no conceito de Ecosystem-Led Growth. Na prática, a plataforma conecta os CRMs de empresas e seus parceiros para identificar oportunidades comerciais que normalmente ficam escondidas em bases de dados separadas.
A tecnologia permite encontrar clientes em comum, empresas em que um parceiro já possui relacionamento e oportunidades de expansão. O objetivo é transformar relações entre empresas em um canal de vendas estruturado e mensurável.
Em vez de depender de indicações informais, a empresa passa a enxergar quais conexões podem gerar negócios e acompanhar quanto de receita veio de seu ecossistema. Segundo Gabriel, a principal diferença é que esse tipo de infraestrutura ainda não existe na América Latina da mesma maneira que nos Estados Unidos.
Mais de 100 conversas para descobrir que a primeira ideia estava errada
Antes de construir completamente o produto, os fundadores conversaram com mais de 100 potenciais clientes. O processo revelou uma realidade diferente daquela imaginada inicialmente. Muitas empresas brasileiras ainda não possuem equipes dedicadas a parcerias, orçamento específico ou processos estruturados para esse tipo de operação.
Em vez de ignorar o resultado, a equipe decidiu mudar a estratégia.
“Eu tinha uma solução excelente para um comprador que, no Brasil, muitas vezes nem existia ainda.”
Para Gabriel, essa foi uma das maiores lições da construção da startup. Empreender exige disposição para abandonar uma tese quando os dados mostram que ela precisa ser modificada.
Um aliado importante no caminho
Durante esse processo, a aproximação com o CRM Bônus se tornou um ponto de virada. Gustavo Gadotti, VP de receita da empresa, entrou como advisor da Overlay. Além de contribuir para o desenvolvimento do produto, ele passou a testar a plataforma dentro da operação do CRM Bônus e a indicar potenciais clientes.
Para Gabriel, ter alguém experiente do mercado validando o problema trouxe uma mudança importante: a tese deixou de ser apenas uma hipótese dos fundadores e passou a ser testada dentro de uma operação real.
Três fundadores, três especialidades
A Overlay é comandada por Gabriel, Jimmy e Will. Jimmy concentra sua atuação em vendas e lidera o processo de captação. Gabriel está mais ligado ao go-to-market, relacionamento e sucesso dos clientes. Will é responsável pela tecnologia e pela construção da plataforma.
Apesar da divisão de responsabilidades, Gabriel explica que, em uma startup, os títulos importam menos do que a disposição para fazer o que precisa ser feito. Para ele, a diferença de perfis entre os três também ajuda nas decisões.
“Quando o time inteiro pensa igual, você concorda rápido e erra junto.”
Empreender aos 20 anos
Gabriel acredita que sua geração está mudando a maneira de enxergar o risco profissional. Para ele, a carreira tradicional não necessariamente representa segurança. Em um mercado em que funções inteiras estão sendo transformadas pela tecnologia, depender de uma única empresa também é uma aposta.
Isso não significa que todo mundo precise empreender. Gabriel critica, inclusive, a romantização do empreendedorismo. Para ele, construir algo próprio está mais relacionado à autoria do que à liberdade de horários.
“Construir algo próprio é sobre autoria. É poder escolher qual problema vai ocupar os seus próximos anos, em vez de receber essa escolha pronta.”
O poder de perguntar antes de tentar vender
Entre as habilidades que considera essenciais para empreendedores, Gabriel destaca a capacidade de fazer as perguntas certas. Para ele, vender é consequência de um bom diagnóstico. O empreendedor que fala demais em uma reunião pode sair dela sabendo menos do que quando entrou.
Ele também aponta a tolerância à ambiguidade como uma característica fundamental. Empreender significa tomar decisões importantes sem ter todas as informações disponíveis. E existe ainda um terceiro ponto: construir relacionamentos sem esperar algo imediatamente em troca.
“Rede é ter feito algo útil por alguém antes de precisar de qualquer coisa.”
Uma visão que vai muito além de uma ferramenta
A grande ambição da Overlay não é simplesmente criar uma plataforma para departamentos de parcerias. Gabriel imagina uma espécie de mapa das relações comerciais entre empresas.
Hoje, uma empresa consegue identificar alguns parceiros e clientes em comum. No futuro imaginado pelo empreendedor, uma rede com centenas de empresas conectadas poderia revelar caminhos comerciais muito mais amplos.
A plataforma poderia responder não apenas quais empresas possuem clientes em comum, mas qual seria o caminho mais eficiente dentro daquele ecossistema para chegar até uma determinada conta.
Do Brasil para a América Latina
A meta declarada é ambiciosa. Em três anos, Gabriel e seus sócios querem transformar a Overlay na camada padrão de ecossistema do B2B brasileiro. Em cinco anos, a intenção é levar a operação para toda a América Latina e transformar a plataforma também em uma ferramenta de inteligência de mercado.
Mas Gabriel mantém os pés no chão.
“Ambição de escala não pode virar desculpa para adiar receita. Empresa grande é consequência de empresa que funciona.”
O sonho por trás dos negócios
Apesar de toda a ambição empresarial, o maior sonho profissional de Gabriel não está necessariamente relacionado a valuation ou tamanho da companhia. Ele quer construir uma empresa que sobreviva à sua própria presença.
Depois da experiência com a The Six, ele percebeu que um negócio pode depender demais da energia e da presença dos fundadores. Com a Overlay, pretende construir mecanismos capazes de gerar valor mesmo quando ele não estiver na sala.
Existe ainda um objetivo pessoal: abrir portas para outras pessoas. Gabriel quer, no futuro, ser para novos empreendedores aquilo que outras pessoas foram para ele. Alguém capaz de apresentar duas pessoas, acreditar em uma ideia ou criar uma oportunidade.
“Se daqui a dez anos existirem empreendedores construindo coisas relevantes porque em algum momento eu apresentei duas pessoas ou banquei uma aposta, para mim isso vale tanto quanto qualquer número de valuation.”
A coragem vem depois
Para quem tem uma ideia, mas ainda não teve coragem de começar, Gabriel acredita que o primeiro passo não exige segurança. A segurança aparece depois da ação.
Sua própria história comprova isso. Ele começou aos 14 anos vendendo ingressos para festas. A The Six começou com seis desconhecidos jantando vendados em uma sala de casa. A Overlay começou com uma planilha e uma pergunta.
Para Gabriel, o importante é entrar em contato com a realidade, conversar com as pessoas que enfrentam o problema e estar disposto a mudar de direção.
“A sua ideia provavelmente está errada, e tudo bem.”
Aos 20 anos, Gabriel Miaguti está construindo sua terceira grande experiência empreendedora. E, embora a tecnologia seja agora sua principal ferramenta, a essência continua a mesma desde a adolescência: conectar pessoas, criar oportunidades e transformar relacionamentos em algo maior.
“Eu sou a pessoa que junta gente. Só que hoje eu faço isso com software.”


