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Dra. Sandra Loiola: quando a própria história se transforma em propósito

Médica que enfrentou a obesidade desde a infância e viveu na própria pele os desafios do emagrecimento fala sobre metabolismo, hormônios, saúde intestinal, estresse, sono, massa muscular, comportamento e os desafios de cuidar do corpo depois dos 40

A história da Dra. Sandra Maria Loiola se confunde, em muitos aspectos, com a história de milhares de mulheres que chegam aos 40 ou 50 anos sentindo que o próprio corpo mudou e que as estratégias utilizadas durante a juventude já não funcionam da mesma maneira.

Mas existe uma diferença importante: Sandra não fala apenas como médica. Ela fala também como alguém que viveu essa transformação.

Obesa desde a infância, convivendo com asma e tendo passado por uma cirurgia bariátrica há 24 anos, ela conhece de perto o peso físico e emocional de uma relação difícil com o próprio corpo.

Atrás do jaleco existe uma mulher que foi obesa desde a infância, que conviveu com asma a vida inteira e que conhece na pele a dor do julgamento.

Essa experiência acabou se tornando parte fundamental de sua maneira de enxergar a medicina.

A Sandra paciente ensinou a Sandra médica a ter empatia de verdade.

Uma médica que precisou olhar para si mesma

Em 2019, depois de quase 25 anos de carreira, Sandra percebeu que precisava buscar respostas diferentes para a própria saúde.

Segundo seu relato, naquele período enfrentava pré diabetes, hipertensão, hipotireoidismo subclínico não detectado, disbiose, doenças autoimunes e hiperparatireoidismo.

A experiência fez com que começasse a questionar uma abordagem baseada apenas no controle dos sintomas.

“Tomava remédios para tudo e nenhum tratava a causa.”

Foi nesse processo que a medicina integrativa ganhou espaço em sua trajetória. A mudança, porém, não ficou restrita ao campo profissional.

Quando a medicina integrativa me curou de algumas e me deixou sob controle de outras, eu entendi: meu propósito não era mais só prescrever, era despertar outras mulheres.

A partir dali, a experiência pessoal passou a influenciar diretamente sua atuação profissional.

Quando a própria paciente virou professora

Foto: Divulgação

Uma das experiências mais marcantes de Sandra aconteceu com seu próprio processo de emagrecimento.

Ela havia realizado uma cirurgia bariátrica 24 anos antes, mas recuperou todo o peso posteriormente. Para ela, essa experiência foi fundamental para compreender que a obesidade não poderia ser resumida ao tamanho do estômago.

Ali entendi que não era sobre estômago, era sobre metabolismo, hormônio e emoção.

Durante a pandemia, outro momento crítico fez com que essa percepção se aprofundasse. Sandra relata ter enfrentado uma disbiose intensa e um período em que seu organismo colapsou.

O resultado relatado por ela foi uma perda de 27 quilos, além do controle de diabetes e hipertensão.

Mas talvez a maior transformação tenha acontecido na forma como passou a exercer a medicina.

Parei de tratar sintomas e comecei a tratar causas.

Depois dos 40, as regras mudam

Um dos principais temas que Sandra aborda é a dificuldade de emagrecer depois dos 40 anos.

Segundo ela, existe uma mudança fisiológica nessa fase da vida, envolvendo hormônios, massa muscular, metabolismo e resistência à insulina.

Para Sandra, portanto, não faz sentido tratar uma mulher de 45 anos exatamente da mesma maneira que uma mulher de 25.

As estratégias muito restritivas podem inclusive trazer consequências indesejadas quando não são individualizadas.

Depois dos 40, o seu corpo não precisa de mais guerra e restrição, e sim de estratégia, reposição do que está em falta e respeito ao seu ritmo hormonal.

A questão, em sua visão, é entender o que mudou no organismo e adaptar a estratégia a esse novo momento.

Metabolismo não é simplesmente “lento”

Quando uma mulher diz que tem metabolismo lento, muitas vezes está tentando explicar uma sensação real: ela come menos, se esforça mais e, ainda assim, não consegue obter os mesmos resultados de antes.

Sandra considera que a expressão “metabolismo lento” é uma simplificação de um fenômeno muito mais complexo. Entre os fatores que ela relaciona a esse processo estão perda muscular, histórico de restrição calórica, inflamação, alterações hormonais e adaptações metabólicas.

Não se trata de uma peça que quebrou.

Essa compreensão muda também a forma de pensar o emagrecimento. Em vez de simplesmente reduzir cada vez mais a alimentação, a proposta é investigar o que pode estar acontecendo.

Hormônios também entram nessa história

Outro ponto destacado pela médica é a relação entre hormônios e mudanças corporais após os 40. Ela chama atenção para alterações relacionadas ao estrogênio, progesterona, testosterona e cortisol e para a maneira como essas mudanças podem influenciar composição corporal, disposição e distribuição de gordura.

A queda do estradiol, por exemplo, está associada por ela à mudança no padrão de distribuição da gordura corporal, com maior concentração abdominal. É também nessa fase que muitas mulheres percebem mudanças que vão muito além da balança. Sandra conhece esse processo pessoalmente. Ela relata ter vivido uma menopausa difícil, com fogachos intensos, choro e mal-estar, e afirma que passou cinco anos sem reposição hormonal por orientação médica relacionada ao histórico familiar.

Foi durante sua investigação pela abordagem integrativa que identificou outras questões que, segundo ela, não haviam sido consideradas anteriormente. Hoje, afirma estar bem com uma reposição hormonal indicada e acompanhada.

O intestino como parte da investigação

A saúde intestinal aparece como outro elemento importante na visão de Sandra. Durante a própria trajetória, ela relata ter enfrentado uma disbiose intensa, especialmente durante a pandemia. Foi uma experiência que, segundo ela, mudou sua maneira de investigar os pacientes.

Com a integrativa entendi que não adianta tratar hormônio, peso, nada, sem olhar para o intestino primeiro.

A partir dessa experiência, o eixo intestino, metabolismo e comportamento passou a ocupar espaço importante em sua abordagem. A proposta é não olhar o ganho de peso como um problema isolado, mas como algo que pode estar relacionado a diferentes aspectos do organismo e da rotina.

Estresse, excesso de trabalho e metabolismo

Outro aspecto importante da trajetória de Sandra foi o impacto do estresse sobre sua saúde. Em um período marcado por excesso de trabalho, problemas e situações de intensa pressão, ela também apresentou níveis muito baixos de cortisol, chegando a registrar um valor de 2.

Para a médica, esse contexto teve relação com a dificuldade de emagrecer e reforçou a importância de considerar o estresse, o descanso e o equilíbrio hormonal dentro de uma estratégia de cuidado integral.

O excesso de trabalho, os problemas, situações, um estresse altíssimo que impedia também de emagrecer.

A experiência também foi determinante para que Sandra mudasse sua relação com o trabalho. Depois de anos atendendo em uma rotina extremamente intensa, chegando a trabalhar até as 3h da madrugada, ela passou a estabelecer limites e a tratar o próprio descanso como parte essencial da saúde.

Aprendi da pior maneira que trabalhar até as 3h me adoeceu.

Inflamação: muito além de uma palavra da moda

Sandra também chama atenção para a inflamação crônica de baixo grau. Em sua avaliação, alimentação baseada em ultraprocessados, excesso de açúcar, álcool, desequilíbrio intestinal e gordura visceral podem estar associados a processos inflamatórios e alterações metabólicas.

Mas ela faz uma ressalva importante: falar sobre inflamação não deveria servir para criar mais um modismo. A proposta, segundo ela, começa por fundamentos como alimentação, sono e saúde intestinal.

Sono e estresse também fazem parte do tratamento

Para Sandra, não existe uma estratégia completa de emagrecimento que ignore a qualidade do sono e os níveis de estresse. A privação de sono pode interferir nos mecanismos relacionados à fome e saciedade, enquanto o estresse crônico está associado a alterações no comportamento alimentar.

Essa percepção também mudou a própria vida da médica. Depois de anos trabalhando até a madrugada, ela percebeu que precisava estabelecer limites. Hoje, afirma que sono, treino, alimentação e pausa são prioridades.

Meu sono, meu treino, minha alimentação e minha pausa são inegociáveis.

A importância da massa muscular

Se antes a preocupação de muitas pessoas durante uma dieta era simplesmente perder peso, Sandra defende uma mudança de perspectiva. Depois dos 40, preservar e construir massa muscular ganha ainda mais importância. Ela destaca a combinação entre ingestão adequada de proteínas, treinamento de força e um déficit calórico que não seja agressivo.

Antes o foco era gastar calorias, agora é construir e preservar massa muscular.

A preocupação está relacionada também ao risco de perder músculo durante emagrecimentos muito rápidos. Nesse contexto, a musculação passa a ocupar um papel estratégico dentro da rotina.

Nem todo suplemento é solução

A popularização de conteúdos sobre saúde nas redes sociais também trouxe uma avalanche de informações sobre vitaminas, minerais e suplementos. Sandra alerta para o risco de transformar suplementação em solução universal. Na sua visão, nenhum suplemento substitui sono adequado, alimentação equilibrada e atividade física. Ela defende que a suplementação seja individualizada e baseada em necessidade real.

Suplemento eficaz é aquele baseado em exame e necessidade real.

A balança não conta toda a história

Para Sandra, outro erro comum é transformar o número apresentado pela balança no principal indicador de sucesso. Uma pessoa pode perder gordura e ganhar músculo sem observar uma grande mudança no peso total. Por isso, ela considera importantes indicadores como disposição, sono, redução do inchaço, composição corporal e autoestima.

A balança não diferencia água, músculo, gordura e inflamação.

A transformação, portanto, precisa ser observada também pela maneira como a pessoa se sente e funciona no dia a dia.

O comportamento por trás do emagrecimento

A experiência profissional também levou Sandra a estudar comportamento humano e neurocomportamento. Para ela, não basta entregar uma prescrição. É preciso entender a pessoa que está recebendo aquela orientação.

Ninguém muda por medo, mudam quando se sentem compreendidas.

A autoestima, nesse contexto, ganha importância. Sandra acredita que uma pessoa precisa desenvolver uma relação de cuidado consigo mesma para conseguir manter mudanças no longo prazo.

Sem autoestima, não há adesão. Sem adesão, não há resultado.

A paciente que existe dentro da médica

Talvez um dos aspectos mais fortes da história de Sandra seja justamente a maneira como sua experiência pessoal influencia sua relação com as pacientes. Ela conta que muitas mulheres chegam ao consultório aos 40 ou 50 anos chorando e dizendo:

Meu corpo não me obedece mais.

Sandra reconhece essa sensação porque já esteve naquele lugar.

Quando olho para elas, me vejo há cinco anos.

Por isso, quando uma paciente melhora o sono, recupera a autoestima e volta a olhar para o próprio corpo com carinho, o resultado ganha um significado especial.

Sinto que estou curando a Sandra do passado também.

De protocolos a pessoas

A trajetória de Sandra também representa uma mudança na própria identidade profissional. Ela resume essa transformação de maneira direta:

No início eu repetia protocolos. Hoje eu investigo pessoas.

É uma frase que sintetiza a maneira como passou a enxergar sua profissão. A médica que antes trabalhava em uma rotina extremamente intensa hoje procura uma prática baseada em mais escuta, individualização e proximidade.

Mudei de uma medicina fria e rápida para uma medicina de escuta profunda. Hoje me coloco como exemplo, não como autoridade distante.

Recomeçar depois dos 40

No centro de sua mensagem existe uma ideia que ultrapassa o emagrecimento: a possibilidade de recomeçar. Sandra acredita que idade, histórico de obesidade ou até mesmo uma cirurgia bariátrica anterior não precisam representar o fim da história.

Quero deixar a mensagem de que é possível recomeçar depois dos 40, 50, depois da bariátrica.

Sua própria trajetória funciona como parte desse argumento. Ela passou pela obesidade, pela bariátrica, pelo reganho de peso, por problemas de saúde, pela menopausa e por uma mudança completa de carreira e rotina. Hoje, utiliza essas experiências para conversar com outras mulheres.

Estratégia no lugar da culpa

Se existe uma mensagem que atravessa sua trajetória profissional e pessoal, é a tentativa de retirar a culpa do centro da conversa sobre obesidade.

Obesidade não é falta de vergonha na cara, é doença complexa que precisa de estratégia, não de punição.

A frase também representa uma mudança cultural importante na maneira de conversar sobre peso. Em vez de perguntar por que alguém não teve disciplina suficiente, Sandra propõe investigar o organismo, o comportamento, os hábitos, o histórico e o momento de vida daquela pessoa.

O legado de Sandra

A história da Dra. Sandra Loiola é, antes de tudo, uma história de transformação. A experiência de ser paciente modificou sua maneira de ser médica. A dificuldade pessoal tornou-se empatia. O enfrentamento da obesidade tornou-se conhecimento. E o conhecimento transformou-se em propósito.

Hoje, ao falar sobre metabolismo, hormônios, saúde intestinal, estresse, sono, massa muscular, comportamento e emagrecimento, Sandra fala também sobre uma questão mais profunda: a possibilidade de uma mulher voltar a acreditar em si mesma. E quando questionada sobre o que diria para quem acredita que seu corpo simplesmente deixou de responder, sua resposta resume boa parte de sua filosofia:

Não é você que está com defeito, foi o método que se tornou inadequado para o seu novo momento.

Para Sandra, depois dos 40, não se trata de iniciar mais uma guerra contra o próprio corpo. Trata-se de entendê-lo. E, a partir dessa compreensão, encontrar uma nova maneira de cuidar de si.

Se meu testemunho servir para uma mulher não desistir dela mesma, meu legado está construído.

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