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Como a inteligência artificial aproxima o Direito da gestão de riscos do mercado financeiro

Uso de dados em larga escala pode ajudar empresas a estimar perdas judiciais, projetar desembolsos e aprimorar o planejamento financeiro de suas carteiras de processos.

 

A inteligência artificial e a análise de dados em larga escala podem mudar a forma como empresas avaliam riscos judiciais e planejam seus compromissos financeiros. A aproximação entre a gestão jurídica e as ferramentas utilizadas pelo mercado financeiro permite analisar carteiras de processos de maneira mais abrangente, identificar padrões e estimar possíveis impactos econômicos das disputas.

A discussão ganha relevância diante do volume de ações administradas por grandes companhias, que podem manter milhares ou até dezenas de milhares de processos simultaneamente. Essas demandas afetam o caixa, as provisões contábeis e o planejamento financeiro, mas nem sempre são avaliadas a partir de uma visão consolidada de toda a carteira.

Em artigo sobre o tema, Vinícius Soares, sócio e diretor de Produto da Turivius, aponta que uma das principais dificuldades históricas da gestão jurídica está na complexidade de organizar informações distribuídas em documentos, decisões e históricos processuais. A inteligência artificial começa a reduzir essa barreira ao permitir o processamento de grandes volumes de dados e a identificação de padrões que seriam difíceis de reconhecer pela análise individual dos casos.

Indicadores financeiros ganham espaço na gestão jurídica

No mercado financeiro, métricas como volatilidade, correlação, desvio padrão e índice de Sharpe ajudam a avaliar riscos e comparar cenários de investimento. Na gestão jurídica corporativa, conceitos semelhantes de mensuração podem contribuir para uma análise mais estruturada das contingências judiciais.

Dois indicadores que ilustram essa aproximação são o forecast e o aging das carteiras jurídicas.

O forecast busca estimar o comportamento financeiro de um conjunto de processos ao longo do tempo, considerando diferentes cenários de desembolso. Já o aging acompanha a idade das ações e permite observar como o tempo de tramitação pode se relacionar com as expectativas de desfecho, pagamento e exposição financeira.

A combinação dessas informações ajuda os departamentos jurídicos a compreender não apenas o valor nominal das demandas, mas também seus possíveis efeitos sobre o orçamento e o fluxo de caixa das empresas.

Isso porque processos com valores semelhantes podem representar riscos econômicos distintos. A probabilidade de perda, o prazo esperado para o desembolso e o valor presente dos fluxos financeiros são variáveis que podem influenciar a avaliação de cada contingência.

DataJud amplia o acesso a informações processuais

A aplicação dessas metodologias depende da disponibilidade de dados estruturados e da capacidade de processar informações em escala. Nesse contexto, o Judiciário brasileiro também avança na organização de sua base de informações.

O DataJud, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), centraliza dados e metadados processuais dos tribunais abrangidos pelo sistema. A plataforma disponibiliza uma API pública que permite acessar informações sobre capas e movimentações processuais, oferecendo subsídios para pesquisas, desenvolvimento de aplicações e análises de tendências do sistema de Justiça.

A disponibilidade desses dados cria condições para ampliar o uso de ferramentas analíticas no setor jurídico. Com informações organizadas, torna-se possível investigar padrões relacionados à duração dos processos, ao comportamento dos tribunais e às características das demandas, desde que respeitados os limites e as condições de uso das bases.

CNJ relata análise de 30 milhões de processos com IA

Um exemplo da aplicação da inteligência artificial na análise de grandes volumes de informações judiciais é a ferramenta Berna, desenvolvida para identificar processos semelhantes e auxiliar no enfrentamento da litigância predatória.

Em março de 2026, o CNJ informou que a ferramenta havia analisado 30 milhões de processos ajuizados entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026, distribuídos por 88 tribunais. Desse total, 2,5 milhões foram identificados como possíveis demandas em massa ou abusivas.

O resultado corresponde a cerca de 8,3% do universo analisado. Essa proporção, porém, não significa que todos os casos identificados tenham sido confirmados como abusivos: o levantamento divulgado se refere a possíveis ocorrências detectadas pela ferramenta.

O exemplo demonstra como sistemas de inteligência artificial podem reconhecer semelhanças e relações em bases extensas de processos, ampliando a capacidade de análise do sistema de Justiça.

Na gestão empresarial, uma lógica semelhante pode apoiar a identificação de padrões em carteiras jurídicas e fornecer informações adicionais para estimativas de risco. A aplicação, entretanto, depende da qualidade dos dados, da adequação dos modelos e da interpretação dos resultados.

Tecnologia apoia decisões, mas não substitui análise jurídica

A incorporação de métricas quantitativas à gestão jurídica não elimina a necessidade de avaliação profissional. A interpretação do contexto, das particularidades processuais, das estratégias adotadas e dos riscos específicos de cada demanda continua dependendo da análise de advogados e gestores.

A inteligência artificial funciona, nesse cenário, como uma camada adicional de informação. Em vez de substituir o julgamento jurídico, pode ampliar a base de evidências utilizada nas decisões e facilitar o acompanhamento de grandes carteiras.

Para as empresas, essa integração também pode aproximar os departamentos jurídicos das áreas financeira, contábil e de gestão de riscos. Projeções de desembolso, acompanhamento do tempo de tramitação e estimativas de exposição podem ser incorporados a processos de planejamento e monitoramento, desde que os indicadores sejam construídos com critérios consistentes.

A tendência apontada por Soares é de uma gestão de contencioso mais orientada por dados, com atualizações mais frequentes das projeções e maior integração entre indicadores jurídicos e financeiros. Nesse modelo, a tecnologia não elimina a incerteza inerente às disputas judiciais, mas pode ajudar as empresas a mensurá-la e a tomar decisões com informações mais abrangentes.

Sobre o autor: Vinícius Soares é sócio e diretor de Produto da Turivius, onde lidera o desenvolvimento da plataforma GPTuri. Foi cofundador da fintech Monetus, adquirida pelo Santander, integra a lista Forbes Under 30 e estudou Engenharia na Columbia University e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Foto Divulgação: Vinícius Soares
Tags: aging jurídico, análise de dados, carteiras jurídicas, CNJ, contingências judiciais, DataJud, forecast jurídico, gestão de contencioso, gestão de riscos jurídicos, Inteligência Artificial no Direito, legaltech, mercado financeiro, planejamento financeiro, tecnologia jurídica, Turivius, Vinicius Soares