Victor Demarré observa mudança no perfil dos interessados, maior planejamento de empresários e profissionais e alerta para os riscos de antecipar a mudança antes da aprovação do visto
A imigração de brasileiros para os Estados Unidos passa por uma transformação de perfil. Se durante muito tempo a decisão de deixar o Brasil esteve associada principalmente à busca por novas oportunidades de trabalho e qualidade de vida, o movimento atual também reúne profissionais com maior formação acadêmica, empresários e pessoas com trajetórias profissionais já consolidadas.
Essa é a percepção de Victor Demarré (@victordemarre), que atua com processos relacionados a vistos e Green Cards para os Estados Unidos e acompanha, ao longo de sua trajetória, famílias e profissionais interessados em estruturar uma mudança para o país.
Segundo Demarré, uma das principais mudanças dos últimos anos está justamente na qualificação de quem procura caminhos migratórios.
“São perfis muito mais profissionais, pessoas mais qualificadas academicamente e também profissionalmente. Mudou completamente o perfil das pessoas que buscam imigração”, afirma.
A mudança ajuda a explicar por que o planejamento migratório passou a estar cada vez mais conectado a decisões de carreira, organização patrimonial, expansão empresarial e estratégias de médio e longo prazo.
Antecipar a mudança pode comprometer o planejamento
Apesar do maior acesso à informação, Demarré identifica um comportamento que continua provocando dificuldades: viajar ou reorganizar a vida nos Estados Unidos antes de uma definição sobre o processo migratório.
Para ele, a tentativa de acelerar etapas pode produzir consequências que nem sempre são consideradas no momento da decisão.
“O principal erro é querer antecipar as coisas. Tem muita gente querendo vir antes de ter o visto aprovado. Isso acaba trazendo problemas futuros para a pessoa e para a família dela”, explica.
Um dos riscos está em realizar atividades incompatíveis com o status migratório utilizado para entrar ou permanecer no país. Trabalhar sem a autorização adequada, por exemplo, pode gerar complicações posteriores.
O cenário reforça a importância de compreender que cada categoria migratória possui critérios e limitações específicos. A estratégia precisa considerar não apenas o objetivo final, mas também a situação profissional, empresarial e familiar de cada interessado.
Empresários enxergam os Estados Unidos como projeto de longo prazo

Entre empreendedores, a decisão de construir uma operação nos Estados Unidos costuma ir além da mudança de endereço.
De acordo com Demarré, fatores como estabilidade econômica e exposição a uma moeda forte contribuem para que empresários brasileiros pensem na internacionalização de seus negócios como parte de uma estratégia de crescimento.
“A moeda e a estabilidade do país fazem com que esses empreendedores pensem em um projeto de médio e longo prazo”, diz.
Uma possibilidade considerada por parte desse público é estruturar uma presença empresarial nos Estados Unidos vinculada ao negócio já mantido no Brasil, com modelos envolvendo filiais ou subsidiárias, sempre de acordo com os requisitos aplicáveis a cada situação.
Nesse contexto, a estratégia migratória passa a conversar diretamente com temas conhecidos do ambiente corporativo: estrutura societária, capacidade financeira, continuidade da operação brasileira, geração de negócios e planejamento de expansão internacional.
Mais do que simplesmente escolher um visto, o empresário precisa avaliar qual configuração é compatível com sua trajetória e com o projeto que pretende desenvolver.
Quando a imigração muda também a forma de consumir e planejar
Ao acompanhar processos envolvendo diferentes famílias, Demarré afirma que um dos aspectos que mais chamam sua atenção é o impacto da imigração antes mesmo de uma eventual mudança de país.
Na prática, iniciar o processo pode modificar a maneira como uma família organiza suas finanças, define prioridades e projeta os próximos anos.
“Mexemos com sonhos todos os dias. A pessoa que entra em um processo de imigração muda a maneira de pensar, a maneira de gastar e passa a planejar algo que ainda não é certo”, relata.
Por isso, ele evita apontar apenas um atendimento como o mais marcante de sua trajetória.
“Todos os casos são especiais. É uma sensação muito difícil de descrever. Só quem já passou por isso sabe.”
A fala evidencia uma característica particular do setor: decisões migratórias normalmente envolvem simultaneamente carreira, patrimônio, família, educação dos filhos, moradia e expectativas sobre o futuro.
Internet ampliou o acesso — e também a concorrência
A popularização de conteúdos sobre imigração nas redes sociais também alterou o mercado.
Há alguns anos, informações sobre determinadas categorias de vistos estavam concentradas em círculos mais restritos. Hoje, vídeos, publicações e relatos de brasileiros que vivem nos Estados Unidos colocaram diferentes possibilidades migratórias diante de um público muito maior.
Para Demarré, a consequência é um aumento expressivo no número de interessados.
“A internet trouxe muita visibilidade para os vistos. Tem muito mais gente fazendo o processo do que há cinco anos.”
Esse crescimento, segundo ele, tende a tornar o ambiente mais competitivo.
“A tendência é ficar cada vez mais concorrido e cada vez mais difícil de ser aprovado.”
O avanço da procura reforça a necessidade de planejamento e documentação consistente, sobretudo entre profissionais qualificados e empresários que enxergam os Estados Unidos não apenas como um destino, mas como parte de uma estratégia profissional ou empresarial.
Em um cenário no qual informação está cada vez mais disponível, o desafio passa a ser transformar conhecimento em planejamento. Para quem considera construir carreira, empresa ou vida nos Estados Unidos, compreender as exigências de cada alternativa antes de tomar decisões financeiras e familiares pode ser tão importante quanto o próprio desejo de mudar de país.


