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Dra. Roberta França e a longevidade consciente: envelhecer bem começa muito antes da velhice

Médica defende uma nova forma de olhar para o envelhecimento, colocando autonomia, saúde mental, vínculos e propósito no centro da discussão

Especialista em longevidade consciente e saúde mental, ela defende que o envelhecimento não começa quando uma pessoa chega à velhice. Ele é construído ao longo de toda a vida. Sua relação com o tema começou muito antes da medicina. Foi na convivência com os avós que surgiu uma percepção afetiva sobre a velhice. Roberta conta que sempre foi muito ligada a eles e admirava o conhecimento, as histórias e a maneira como enxergavam a vida.

“Antes de conhecer a velhice pela medicina, eu a conheci pelo afeto”, afirma.

Ao longo da carreira, o contato com pacientes mais velhos e suas famílias ampliou esse olhar.

Ela percebeu que cuidar de uma pessoa mais velha exigia muito mais do que acompanhar doenças, exames e medicamentos. Era necessário compreender quem estava por trás daquele diagnóstico, seus vínculos, seus medos, seus desejos e, principalmente, sua autonomia.

Foi então que uma pergunta passou a acompanhá-la:

“Por que esperamos alguém ficar velho para começar a falar sobre envelhecimento?”

Essa reflexão mudou sua maneira de exercer a medicina. Para Roberta, a geriatria não deve ser uma conversa restrita aos idosos, porque o envelhecimento acontece durante toda a vida.

“Ninguém dorme com 20 anos e acorda com 70”, destaca.

A pessoa que seremos aos 70, 80 ou 90 anos começa a ser construída muito antes. É dessa percepção que nasceu grande parte do trabalho desenvolvido por ela em torno da longevidade consciente.

Viver mais ou viver melhor?

Foto: Divulgação

O aumento da expectativa de vida é, para Roberta, uma das grandes conquistas da medicina. Mas, segundo ela, existe agora um desafio ainda maior: pensar como queremos viver os anos que conquistamos.

“Quando eu falo de longevidade, o que importa não é apenas quantos anos você tem, mas quanto você funciona com os anos que tem.”

Para a médica, isso envolve funcionalidade, capacidade de decisão, saúde mental, vínculos, propósito e, principalmente, autonomia. Chegar aos 80, 90 ou 100 anos não deve ser o único objetivo. É preciso pensar em quais condições a pessoa deseja chegar a essas idades. Autonomia, nesse contexto, significa poder levantar, caminhar, viajar, escolher, participar, conviver e tomar as próprias decisões.

“Viver mais é uma conquista da medicina. Viver melhor durante mais tempo é um projeto de vida.”

O conceito de longevidade consciente

Para Roberta, longevidade consciente significa compreender que o envelhecimento não começa na velhice. Pequenas escolhas repetidas durante décadas ajudam a construir o corpo, o cérebro, a saúde mental e a capacidade funcional com que chegaremos às idades mais avançadas. Ela, porém, faz uma ressalva importante: isso não significa acreditar que temos controle absoluto sobre o envelhecimento. Genética, doenças, condições sociais e acontecimentos inesperados também fazem parte dessa equação.

“Seria injusto transformar longevidade em uma espécie de prêmio para quem ‘fez tudo certo’”, explica.

Existe, entretanto, uma parcela da trajetória sobre a qual cada pessoa pode agir. É justamente aí que entra a prevenção. Para Roberta, ela deve deixar de ser uma conversa baseada apenas no medo de adoecer e passar a ser uma conversa sobre capacidade para viver.

“Não lutar contra a idade, mas construir recursos para viver bem dentro dela.”

O básico ainda funciona

Em uma sociedade cada vez mais interessada em soluções rápidas, suplementos, tecnologias e tratamentos inovadores, Roberta chama atenção para aquilo que muitas vezes parece simples. Atividade física, preservação de massa muscular, alimentação adequada, sono, vacinação, controle das doenças crônicas, saúde mental, estímulo cognitivo e bons vínculos sociais continuam sendo fundamentais.

“Eu costumo dizer que o básico não viraliza muito, mas a ciência continua voltando a ele.”

Outro erro comum, segundo a médica, é acreditar que exames normais significam necessariamente um envelhecimento saudável. Uma pessoa pode apresentar bons resultados laboratoriais e, ao mesmo tempo, estar perdendo força, equilíbrio, mobilidade ou vínculos sociais. O envelhecimento saudável precisa ser observado de maneira integral.

A escolha dos 40 pode ajudar a determinar a autonomia dos 80

Uma das frases que melhor resume a visão da médica é:

“A escolha dos 40 ajuda a determinar a autonomia dos 80.”

Roberta explica que não se trata de estabelecer uma idade matemática, mas de antecipar uma conversa que muitas vezes só acontece quando os problemas já apareceram. Construir músculo antes de precisar dele, cuidar do cérebro, controlar pressão, diabetes e colesterol, dormir adequadamente, manter a vacinação em dia e cuidar da saúde mental são algumas das atitudes citadas pela médica. Mas existe outro ponto que, segundo ela, costuma ser esquecido: os vínculos.

“Quem estará sentado à mesa conosco aos 70, 80 ou 90 anos?”

Para Roberta, longevidade também é construída na maneira como vivemos, trabalhamos, nos relacionamos e encontramos sentido para continuar participando da vida.

Saúde mental também é longevidade

Para Roberta, não existe longevidade consciente sem saúde mental.

Durante muito tempo, a medicina tratou diferentes partes do ser humano como se fossem independentes.

“Falávamos do coração, do cérebro, dos músculos, dos exames, como se a mente estivesse em outro lugar. Ela não está.”

Depressão, ansiedade, isolamento social, estresse crônico e distúrbios do sono podem interferir na qualidade de vida, no autocuidado, nos relacionamentos, na adesão aos tratamentos e na capacidade funcional. Existe ainda uma questão que considera fundamental: não basta acrescentar anos biologicamente se, emocionalmente, a pessoa perdeu o desejo de participar da própria vida.

“Por isso saúde mental não é um complemento da longevidade. Ela faz parte dela.”

Consistência é mais importante que grandes transformações

Na experiência da médica, as mudanças que mais funcionam geralmente não são as mais espetaculares. São aquelas que conseguem permanecer. Começar a se movimentar, ganhar força, dormir melhor, organizar a alimentação, tratar adequadamente as doenças existentes, rever medicamentos quando necessário, voltar a encontrar pessoas, sair de casa e ter projetos são algumas das atitudes que podem fazer diferença.

“A medicina pode fornecer informação. Mas informação sozinha não transforma uma vida.”

Para Roberta, o grande desafio está justamente em transformar conhecimento em comportamento. A maioria das pessoas sabe muitas coisas que deveria fazer. O problema é conseguir incorporar essas escolhas à rotina.

Nunca é tarde para começar

Foto: Divulgação

Roberta prefere trocar a palavra “preocupar” por “construir” quando fala sobre longevidade. Ela não quer que pessoas de 30 ou 40 anos vivam preocupadas com a velhice. A proposta é que compreendam que já estão envelhecendo e podem participar ativamente desse processo. Quanto antes começar, melhor. Mas isso não significa que quem começou mais tarde perdeu a oportunidade.

“É melhor começar aos 30 do que aos 50? Provavelmente. Mas é melhor começar aos 50 do que aos 60. Aos 60 do que aos 70.”

Para ela, longevidade não precisa ser fonte de ansiedade.

“Ela pode ser uma oportunidade de consciência.”

Envelhecer não significa deixar de viver

Roberta acredita que é necessário fugir de dois extremos. De um lado, existe a visão negativa que associa automaticamente a velhice à doença, dependência e incapacidade. Do outro, existe uma romantização da velhice, como se envelhecer bem significasse permanecer jovem para sempre.

“Nenhuma dessas imagens me interessa.”

Envelhecer traz mudanças, perdas e adaptações. Mas também pode trazer experiência, repertório, novos projetos, relações e possibilidades. Para ela, talvez seja mais importante deixar de perguntar apenas quantos anos uma pessoa tem e começar a perguntar o que ela ainda consegue e deseja fazer com os anos que possui.

“Não precisamos transformar o velho em jovem para valorizá-lo. Precisamos reconhecer valor, identidade e capacidade em todas as fases da vida.”

Quando proteger demais pode tirar a autonomia

A família pode ser uma das maiores fontes de proteção durante o envelhecimento. Mas, segundo Roberta, também pode acelerar a perda de autonomia sem perceber. Isso acontece principalmente quando existe algum diagnóstico de demência. Na tentativa de proteger, familiares podem começar a fazer tudo pela pessoa: escolher sua roupa, sua comida, responder por ela, impedir pequenas tarefas ou retirar decisões. Aos poucos, capacidades que ainda existiam deixam de ser exercitadas.

“Precisamos encontrar um equilíbrio entre segurança e autonomia.”

Para a médica, sempre que possível, a pessoa deve continuar fazendo, escolhendo, participando e decidindo.

“Cuidar não significa substituir alguém. Cuidar também é preservar aquilo que a pessoa ainda consegue ser e fazer.”

Da medicina para a comunicação

A carreira de Roberta também ganhou uma nova dimensão quando seu conhecimento passou a ultrapassar as paredes do consultório. A escrita, as redes sociais, as palestras e, mais recentemente, o Velho Pod ampliaram o alcance de suas conversas sobre saúde e longevidade. Como autora, ela percebeu que uma experiência pode permanecer e chegar a alguém que talvez nunca conheça pessoalmente. Como palestrante, descobriu a força de provocar uma reflexão coletiva. A comunicação digital também trouxe outro aprendizado: conhecimento técnico só gera impacto quando as pessoas conseguem compreendê-lo e relacioná-lo à própria vida.

“Hoje eu não quero apenas transmitir informação. Quero provocar uma pergunta: ‘O que eu posso começar a fazer diferente a partir de agora?’”

Essa transformação fez com que ela deixasse de pensar apenas em quantas pessoas poderia atender e passasse a pensar também em quantas pessoas uma ideia poderia alcançar e transformar.

Uma história que marcou sua vida como médica

Entre tantos pacientes atendidos ao longo dos anos, existe uma história que permanece especialmente viva na memória de Roberta. Era um paciente italiano, um homem grande, forte, robusto e pai de três filhos. Apesar da aparência de força, ele tinha muito medo de morrer. Ao longo dos anos, os dois conversaram diversas vezes sobre esse medo. Mais tarde, ele recebeu o diagnóstico de câncer. O tratamento foi realizado, mas a doença avançou até chegar ao momento em que já não havia possibilidade terapêutica com intenção de cura.

Foi então que começaram os cuidados paliativos. O objetivo da medicina havia mudado. Já não era mais curar a doença, mas controlar o sofrimento e proporcionar dignidade durante o tempo que ainda restava. Foi nesse momento que o paciente fez um pedido à médica:

“Não me deixa morrer no hospital. Eu quero que você cuide de mim até o final.”

Ele tinha medo de morrer em um CTI, longe dos filhos, da família e da casa onde havia vivido por mais de 50 anos. Queria morrer em casa. Depois de muitas conversas com a família, Roberta respeitou a vontade do paciente. Ele morreu em sua própria casa, cercado pela família e segurando a mão da médica. Uma semana depois, as duas filhas apareceram no consultório com um buquê de flores e uma caixa de bombons. O pai havia deixado um pedido para que elas entregassem os presentes depois de sua morte.

A mensagem era de que Roberta havia tornado a vida dele “mais doce e mais florida”. Para a médica, foi uma das maiores emoções de sua trajetória profissional.

“Existe um momento em que curar já não é possível, mas cuidar continua sendo possível até o último instante.”

A experiência reafirmou uma convicção que permanece em sua prática: medicina também significa escutar, respeitar escolhas, aliviar sofrimento e permanecer ao lado.

O futuro de uma sociedade que viverá mais

Para Roberta, o grande desafio da longevidade ultrapassa os consultórios e hospitais. Famílias, empresas, cidades, sistemas de saúde, previdência e relações de trabalho também precisarão se adaptar. A sociedade terá cada vez mais pessoas vivendo e trabalhando por mais tempo, famílias convivendo com diferentes gerações e um número maior de pessoas cuidando de pais muito idosos. As empresas também precisarão aprender a lidar melhor com carreiras mais longas, diversidade geracional, saúde mental, transições profissionais e profissionais 50+.

“Tecnologia e novos tratamentos não resolverão sozinhos o desafio da longevidade.”

Na visão da médica, será necessário construir uma cultura que prepare as pessoas para envelhecer antes que elas se tornem idosas. E talvez essa seja uma das grandes discussões das próximas décadas: não apenas quanto tempo seremos capazes de viver, mas qual sociedade estamos construindo para comportar vidas cada vez mais longas.

“Não apenas quanto tempo seremos capazes de viver, mas que sociedade estamos construindo para comportar vidas cada vez mais longas.”

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