Foto: Miguel de Sá
Evento reuniu mais de 2 mil pessoas no Rio de Janeiro e anunciou para 2027 o tema “Ecossistemas do Espaço Interior”
A relação entre arquitetura, tecnologia, comportamento e sustentabilidade esteve no centro da 4ª edição do Salão Rio de Interiores, realizada entre 25 e 27 de agosto de 2026, no Rio de Janeiro. Com o tema “Interiores Regenerativos: do Habitar ao Pertencer”, o evento reuniu mais de 2 mil pessoas entre profissionais, instituições e marcas ligadas à arquitetura e ao design de interiores.
Ao longo de três dias, a programação ampliou a discussão sobre o papel dos espaços interiores diante de transformações ambientais, climáticas e tecnológicas. Os debates abordaram temas como inteligência artificial, inovação, diversidade, sustentabilidade, cultura e novas formas de ocupação das cidades.
Inteligência artificial entra no debate sobre arquitetura
O painel “Tecnologias para Arquitetura” discutiu como ferramentas digitais e inteligência artificial podem transformar processos de criação e gestão de projetos, sem substituir a dimensão humana da arquitetura.
A arquiteta e urbanista Mariana Moro apresentou o conceito de “criatividade híbrida” e abordou diferentes etapas de utilização das ferramentas de IA no segmento de interiores. Para ela, o repertório do profissional continua sendo determinante para evitar resultados genéricos e direcionar a tecnologia para soluções específicas de projeto.
Já o arquiteto e urbanista Dudu Ribeiro tratou dos impactos da inteligência artificial sobre o mercado e sobre o perfil dos profissionais de arquitetura e interiores. Segundo ele, a disseminação das ferramentas amplia a demanda por profissionais capazes de utilizá-las de forma estratégica.
Ribeiro também destacou um dado apresentado durante sua participação: 86,7% dos atrasos e sobrecustos seriam originados dentro das próprias estruturas de trabalho, e não pela ausência de ferramentas. A partir desse cenário, ele defendeu que a principal discussão não é se a IA substituirá arquitetos, mas quem conduzirá o processo de transformação provocado pela tecnologia.
Eventos como espaços de formação e transformação
Outro eixo da programação foi o painel “Eventos Que Transformam”, que discutiu o papel de feiras, mostras, festivais, semanas de design e bienais na formação de repertório, valorização cultural e transformação social.
A arquiteta, urbanista e pesquisadora Gabriela de Matos compartilhou experiências relacionadas à participação na Bienal de Veneza e à curadoria da próxima Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo. Para ela, a arquitetura precisa ser compreendida como parte da cultura e não pode ser reduzida a uma única linguagem, especialmente diante da diversidade da produção brasileira.
Patrícia Quentel, idealizadora e diretora da CASACOR Rio de Janeiro, resgatou a trajetória da mostra, que completa 40 anos no Brasil e 35 no Rio de Janeiro. A discussão também passou pelo desafio enfrentado por grandes eventos entre a necessidade de movimentar negócios e consumo e a crescente cobrança por práticas sustentáveis.
Na avaliação de Quentel, esse equilíbrio pode ser buscado por meio de processos mais sustentáveis e do apoio a iniciativas sociais e entidades beneficentes.
O jornalista e empreendedor Lauro Andrade, fundador da DW! Semana de Design de São Paulo, levou para o debate a perspectiva estratégica dos eventos para o setor. Ao relembrar sua experiência com a Expo Revestir e a inspiração trazida pelo formato de festivais internacionais de design, ele destacou três características que considera diferenciais do Brasil: criatividade, empreendedorismo e biodiversidade.
Da experiência individual ao futuro das cidades
O encerramento da programação ficou a cargo do arquiteto, engenheiro e professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) Carlo Ratti, que apresentou o painel “Como a Arquitetura Pode Regenerar o Planeta”.
A palestra conectou os diferentes níveis de discussão propostos pelo evento — indivíduo, cidade e planeta. A partir da análise de como as pessoas utilizam os espaços urbanos, Ratti discutiu as transformações provocadas pela tecnologia e pelos novos hábitos sociais.
Como referência, o arquiteto recuperou estudos do urbanista William H. Whyte, que utilizou imagens de praças de Nova York nos anos 1970 para analisar os fatores capazes de estimular a permanência e a convivência em espaços públicos.
Ratti apresentou dados para mostrar como esses comportamentos mudaram. Segundo os números apresentados, as pessoas atualmente caminham 15% mais rápido, enquanto 68% caminham sozinhas, em um contexto de redução da frequência de encontros em espaços públicos.
Para o professor, essas mudanças não dizem respeito apenas ao desenho urbano. Elas também refletem transformações na maneira como as pessoas vivem, se relacionam e ocupam as cidades.
A partir dessa perspectiva, Ratti defendeu uma arquitetura capaz de aproximar pessoas, tecnologia e natureza. O arquiteto argumentou que os espaços podem contribuir para reconstruir conexões sociais e, ao mesmo tempo, estabelecer relações mais integradas com os ecossistemas.
Próxima edição já tem data e tema
Com o encerramento da quarta edição, a organização anunciou a realização do 5º Salão Rio de Interiores entre 17 e 19 de agosto de 2027. O próximo encontro terá como tema “Ecossistemas do Espaço Interior”.
A programação de 2026 foi organizada com curadoria de Gisele Taranto e Marcela Abla e reuniu profissionais, instituições setoriais e marcas em uma combinação de palestras, debates e área de exposição.
O Salão é realizado pela Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura do Rio de Janeiro (AsBEA/RJ) e pelo Departamento do Rio de Janeiro do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ), com patrocínio do CAU/RJ e CasaShopping. A Junta Arquitetura responde pelo layout e pelo conceito sustentável dos estandes, enquanto a Lider é responsável pelo mobiliário oficial.


