Pesquisa da Brain Inteligência Estratégica revela avanço da busca por estruturas de saúde e bem-estar nos residenciais, enquanto 79% dos entrevistados ainda vivem em condomínios sem áreas destinadas à atividade física
A academia está deixando de ser apenas um diferencial dos empreendimentos de alto padrão para se tornar um dos espaços mais valorizados por quem busca um novo imóvel. Pesquisa da Brain Inteligência Estratégica aponta que 52% dos entrevistados gostariam de ter academia no condomínio ou na própria residência, o maior índice entre os ambientes relacionados a saúde e bem-estar avaliados pelo levantamento.

O movimento acompanha uma transformação na forma como o consumidor enxerga a moradia. Além de localização, segurança e metragem, fatores como qualidade de vida, otimização do tempo e facilidade para manter uma rotina saudável passaram a influenciar a decisão de compra.
A tendência também coloca a arquitetura dos novos empreendimentos diante de um desafio: criar áreas comuns que sejam efetivamente utilizadas pelos moradores e não apenas ambientes pensados para valorizar o material de divulgação dos imóveis.
Segundo a pesquisa, academia e piscina concentram 74% do uso das áreas comuns entre moradores que frequentam esses espaços. O núm

ero indica que ambientes destinados à atividade física estão entre as estruturas capazes de gerar utilização recorrente dentro dos condomínios.
Ao mesmo tempo, existe uma distância significativa entre demanda e oferta. 79% dos participantes afirmaram que os prédios onde vivem não possuem áreas destinadas à prática de atividades físicas.
Menos deslocamento e mais eficiência na rotina
Além dos impactos ligados à saúde, a presença de uma academia dentro do condomínio também está associada à produtividade e à gestão do tempo.
Em grandes centros urbanos, deslocamentos fazem parte de uma parcela importante da rotina. Ter a possibilidade de treinar no próprio empreendimento pode reduzir trajetos, facilitar a organização diária e aumentar a possibilidade de conciliar atividade física, trabalho e compromissos pessoais.
A mudança ajuda a explicar por que o mercado imobiliário passou a incorporar serviços que anteriormente estavam distribuídos pela cidade.
Academias, coworkings, minimercados, lavanderias compartilhadas, áreas para recebimento de encomendas e espaços de descanso começam a fazer parte de uma arquitetura pensada para concentrar diferentes atividades no mesmo endereço.
Para Charles Kan, especialista no mercado imobiliário e CEO da Construtora CK, o consumidor passou a esperar mais funcionalidade das áreas compartilhadas.
“O consumidor não quer apenas uma área comum bonita para usar eventualmente. Ele busca um condomínio que resolva parte da rotina: treinar, trabalhar, receber uma entrega, comprar um item básico, lavar roupa ou ter um espaço de descanso sem precisar sair de casa”, afirma.
Segundo o executivo, academia, coworking, lavanderia, minimercado e ambientes de bem-estar passaram a integrar a lógica dos chamados condomínios completos.
Arquitetura acompanha novos hábitos
A transformação também interfere diretamente no planejamento arquitetônico dos empreendimentos.
Em vez de concentrar investimentos apenas em salões de festas e espaços tradicionais de lazer, incorporadoras começam a direcionar metragem para estruturas relacionadas à saúde, trabalho remoto, mobilidade e serviços.
Um exemplo é o Versus, empreendimento da Construtora CK em Itajaí, Santa Catarina. Com VGV estimado em R$ 150 milhões, o projeto terá 204 unidades residenciais — 198 studios e seis apartamentos —, além de três salas comerciais e uma torre de aproximadamente 96 metros.
O empreendimento prevê dois pavimentos de lazer, somando mais de 1,6 mil metros quadrados. A academia terá aproximadamente 116 m² e será acompanhada por espaços de pilates, spa com hidromassagem, sala de massagem, sauna seca e piscina.
O projeto também inclui coworking, lavanderia compartilhada, minimercado, cafeteria, espaço para delivery, bicicletário, oficina para bicicletas, áreas gourmet, salão de festas, sala de jogos, espaço infantil e pet place.
A combinação mostra como os novos projetos imobiliários tentam responder a diferentes transformações de comportamento ao mesmo tempo: crescimento do trabalho híbrido, maior preocupação com saúde, expansão das compras por delivery e procura por serviços que diminuam deslocamentos.
Bem-estar também entra na disputa pelo valor do imóvel
Para incorporadoras e construtoras, a discussão vai além da oferta de lazer.
Quanto maior o uso de determinada estrutura, maior tende a ser sua percepção de utilidade para o morador. Isso torna a escolha das áreas comuns uma decisão de eficiência do próprio projeto imobiliário.
Uma academia utilizada diariamente, por exemplo, pode gerar uma percepção de valor diferente de ambientes que permanecem vazios durante grande parte do mês.
Nesse cenário, compreender hábitos e necessidades do público passa a ser parte da estratégia de desenvolvimento imobiliário.
Os números da Brain indicam que existe uma demanda relevante ainda não atendida. Enquanto mais da metade dos entrevistados gostaria de ter academia no local onde mora, quase oito em cada dez ainda não contam com estruturas destinadas à prática de atividade física.
A tendência coloca saúde, produtividade, arquitetura e eficiência operacional no centro de uma nova disputa do mercado imobiliário: desenvolver condomínios que não ofereçam apenas metros quadrados, mas soluções capazes de simplificar a rotina de quem vive neles.


