Foto: Yulli Nakamura
Imagem pública de presidentes e fundadores ganha peso nas decisões de investidores, negociações estratégicas e processos de valuation
Planilhas, indicadores financeiros, crescimento de receita e participação de mercado continuam fundamentais para avaliar uma empresa. Mas um ativo menos tangível vem ocupando espaço cada vez maior nas decisões de investidores e conselhos: a reputação de quem está no comando do negócio.
Em um ambiente corporativo marcado pela exposição nas redes sociais, velocidade da informação e maior cobrança por posicionamento, a imagem pública de CEOs e fundadores deixou de ser apenas uma questão de comunicação. Ela pode influenciar diretamente a confiança de investidores, clientes, parceiros e até profissionais interessados em trabalhar na companhia.

Uma pesquisa global da Weber Shandwick, realizada com 1.700 executivos em 19 países, aponta que 44% do valor de mercado de uma companhia pode estar associado à reputação de seu CEO. No recorte brasileiro citado pelo levantamento, o percentual chega a 76%, reforçando a importância da liderança na percepção de valor das organizações.
Para Patrícia Dalpra, especialista em branding, reputação, carreira, imagem e personal branding, o movimento mostra que o mercado passou a observar o executivo quase com a mesma atenção dedicada aos indicadores da própria companhia.
“O que o investidor chama de risco de execução é, na prática, uma pergunta sobre confiança: eu acredito que esse líder vai entregar o que promete? Visibilidade constrói reputação. Reputação constrói confiança. E confiança tem preço no valuation”, afirma.
CEO virou parte do ativo da empresa
A transformação é especialmente relevante porque muitas organizações ainda tratam a marca pessoal dos executivos como algo separado da estratégia empresarial.
Na prática, porém, uma declaração mal interpretada, uma crise nas redes sociais ou uma postura considerada incompatível com os valores da organização pode gerar impactos que ultrapassam a imagem individual do executivo.
Patrícia relata ter acompanhado o caso de um CEO que enfrentou uma crise reputacional depois da repercussão negativa de uma declaração pública.
Segundo ela, os fundamentos da empresa permaneceram praticamente inalterados: o produto continuava sólido, os indicadores eram positivos e a operação seguia saudável. Mesmo assim, parceiros começaram a se afastar, negociações perderam ritmo e novos questionamentos surgiram.
O episódio evidencia um desafio crescente das empresas: bons números nem sempre são suficientes quando a confiança na liderança é colocada em dúvida.
Reputação também pesa no valuation
A influência dos executivos tende a ganhar ainda mais importância em startups, scale-ups e companhias que dependem de novas rodadas de investimento, fusões, aquisições ou entrada de parceiros estratégicos.
Nesses processos, investidores analisam não apenas os resultados apresentados no balanço, mas também a capacidade da liderança de executar a estratégia, administrar crises, formar equipes e conduzir a empresa durante ciclos de crescimento.
Nesse cenário, fundadores e CEOs que participam de discussões relevantes do setor, compartilham conhecimento e apresentam uma visão clara de futuro podem contribuir para reduzir a percepção de risco associada ao negócio.
“Empresas com líderes reconhecidos como autoridades em seus segmentos deixam de ser avaliadas apenas por métricas e múltiplos tradicionais. Elas passam a representar uma categoria, uma visão de futuro e uma capacidade diferenciada de atrair talentos, clientes e investidores”, explica Patrícia.
Segundo a especialista, a reputação do executivo passa a funcionar como uma espécie de atalho de credibilidade para diferentes públicos.
Da comunicação à estratégia de negócios
O avanço dessa discussão também modifica o papel do personal branding dentro das organizações.
Em vez de ser utilizado apenas para aumentar a exposição de executivos em eventos, entrevistas ou redes sociais, o posicionamento da liderança passa a integrar estratégias de relacionamento com investidores, atração de talentos, fortalecimento institucional e desenvolvimento de novos negócios.
O desafio está em construir visibilidade sem transformar a comunicação do CEO em uma ação puramente promocional.
Para especialistas da área, consistência entre discurso, decisões e resultados tende a se tornar cada vez mais relevante. Em mercados altamente competitivos, a diferença pode estar justamente na capacidade do líder de transmitir segurança sobre os próximos passos da organização.
Com empresas e executivos cada vez mais expostos, gestão de reputação deixa de ser apenas uma ferramenta de imagem e passa a ocupar espaço nas discussões sobre risco, confiança e geração de valor.
Quem é Patrícia Dalpra
Patrícia Dalpra atua nas áreas de branding, personal branding, reputação, carreira e comunicação há mais de 20 anos. É autora dos livros O Código Feminino da Liderança – O Futuro das Organizações e seus Líderes e DNA Brasil: Tendências e Conceitos Emergentes para as Cinco Regiões Brasileiras e integra o Conselho Winning Women, da EY.
Pós-graduada pela Universidade Ramon Llull Barcelona e com formação executiva em Brand Leadership pela Columbia University, em Nova York, trabalha com executivos C-level, empresas, profissionais liberais e esportistas em projetos relacionados a posicionamento, gestão de carreira, liderança e proteção de reputação.


