Na foto, João, Hugo e Iury. Foto: Divulgação
Com o avanço do ChatGPT e de outras plataformas de inteligência artificial, empresas começam a enfrentar um novo desafio: não basta aparecer no Google — será preciso também se tornar uma referência para as IAs
Durante anos, empresas investiram pesado para conquistar as primeiras posições do Google. Agora, uma nova disputa começa a ganhar força no marketing digital: ser uma das marcas consideradas relevantes pelas plataformas de inteligência artificial.

A expansão dos anúncios do ChatGPT para o Brasil coloca ainda mais atenção sobre essa transformação. Mais do que representar um novo espaço publicitário, o movimento pode acelerar uma mudança na maneira como consumidores descobrem empresas, pesquisam produtos e decidem o que comprar.
Na prática, a disputa pela atenção pode deixar de acontecer apenas entre links exibidos em uma página de buscas e passar também pelas respostas entregues diretamente por assistentes de inteligência artificial.
Do Google para uma conversa com a IA
Para Hugo Silveira, especialista em vendas e cofundador do Grupo HRZ, a principal transformação pode estar justamente no comportamento do consumidor.
“Durante muito tempo, a principal preocupação das empresas foi aparecer nas primeiras posições do Google. Com a inteligência artificial ganhando espaço na rotina das pessoas, a tendência é que parte dessa busca migre para conversas com plataformas como o ChatGPT”, afirma.
Isso significa que o tradicional SEO não desaparece, mas passa a dividir espaço com uma preocupação cada vez mais importante: como uma empresa é compreendida digitalmente pelas ferramentas de inteligência artificial.
Segundo Silveira, conteúdos relevantes, informações confiáveis e uma presença digital consistente tendem a ganhar ainda mais peso na construção da autoridade das empresas.
A nova batalha das marcas é pela autoridade
João Vinas, engenheiro, empresário e especialista em CRM, automação comercial e inteligência artificial aplicada a vendas, acredita que apenas “estar na internet” pode deixar de ser suficiente.
Para ele, fatores como reputação, consistência das informações, atualização dos conteúdos e organização dos dados podem influenciar diretamente a capacidade de uma empresa se tornar referência no ambiente digital.
“Não basta uma empresa estar presente na internet. A tendência é que conteúdos consistentes, informações atualizadas, boa reputação e organização dos dados aumentem a relevância da marca dentro das plataformas de IA”, explica.
Esse cenário também aproxima áreas que, durante muito tempo, trabalharam de maneira relativamente separada.
Marketing, CRM, atendimento, vendas, produção de conteúdo e tecnologia passam a contribuir conjuntamente para a construção da chamada autoridade digital.
Cada artigo publicado, informação institucional, avaliação de consumidor e interação da marca pode se transformar em parte desse ecossistema.
IA pode encurtar o caminho entre pesquisa e compra
A transformação pode atingir também a jornada de consumo.
Hoje, uma compra costuma envolver várias etapas: o consumidor pesquisa no Google, entra em diferentes sites, consulta avaliações, compara preços, busca opiniões em redes sociais e só então toma uma decisão.
Com ferramentas de inteligência artificial, boa parte desse processo pode acontecer dentro de uma única conversa.
Iury Borges, estrategista de vendas e sócio-diretor do Grupo HRZ, acredita que esse comportamento tende a ganhar espaço.
“É possível que, cada vez mais, as pessoas iniciem a busca por produtos ou serviços fazendo perguntas diretamente para uma inteligência artificial”, afirma.
Nesse cenário, a IA pode apresentar comparações, características de produtos, vantagens, explicações e recomendações sem que o consumidor precise necessariamente visitar diversos sites.
Para as empresas, isso cria uma questão estratégica: como fazer parte dessas respostas?
Conteúdo deixa de disputar apenas cliques
Durante anos, uma das principais metas de uma estratégia de conteúdo foi atrair tráfego para sites por meio dos mecanismos de busca.
A inteligência artificial pode alterar parcialmente essa lógica.
O conteúdo continuará importante, mas poderá ter outra função: ajudar plataformas de IA a compreender quais empresas dominam determinados assuntos e quais informações merecem maior confiança.
“Esse conteúdo precisará responder dúvidas reais, organizar conhecimento e transmitir confiança”, explica Borges.
A mudança coloca pressão sobre empresas que ainda tratam seus canais digitais apenas como vitrines institucionais.
Sites desatualizados, informações desencontradas, pouca produção de conteúdo e ausência de autoridade sobre o próprio mercado podem se tornar problemas ainda maiores em um ambiente no qual algoritmos passam a organizar e sintetizar informações para o consumidor.
O SEO vai acabar?
Apesar das mudanças, especialistas não apontam para o fim dos mecanismos tradicionais de busca.
O Google e outras plataformas continuam tendo enorme relevância na descoberta de produtos, serviços e empresas.
O que começa a mudar é a quantidade de ambientes nos quais uma marca precisa construir presença.
Além de disputar espaço nas buscas, redes sociais e mídia paga, empresas podem precisar disputar também a confiança das inteligências artificiais.
Para Hugo Silveira, organizações que iniciarem essa construção mais cedo poderão estar mais preparadas caso esse comportamento se consolide.
“Não se trata apenas de uma mudança na publicidade. O comportamento das pessoas pode mudar, e isso altera a forma como elas encontram empresas, pesquisam soluções e tomam decisões”, afirma.
A próxima disputa do marketing digital
O Google mudou profundamente a maneira como empresas construíram sua presença digital nas últimas décadas. Depois vieram as redes sociais, influenciadores, marketplaces e plataformas de mídia paga.
Agora, a inteligência artificial adiciona mais uma camada a essa disputa.
Se consumidores passarem a perguntar diretamente às IAs “qual empresa contratar?”, “qual produto comprar?” ou “qual solução é melhor?”, aparecer bem posicionado em uma página de resultados poderá ser apenas parte do jogo.
A grande pergunta para as marcas passa a ser outra:
quando uma inteligência artificial precisar recomendar uma empresa do seu mercado, ela encontrará motivos suficientes para citar a sua?
E é justamente aí que pode começar uma das próximas grandes batalhas do marketing digital: a disputa não apenas por cliques, mas por autoridade, relevância e confiança.


