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André Buric: “Antes de querer vencer o mundo, vença a si mesmo”

ENTREVISTA | COMPORTAMENTO, CÉREBRO E NEGÓCIOS

Fundador do BrainPower e mestre em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental pelo King’s College London, André Buric mostra por que informação, motivação e força de vontade nem sempre são suficientes para transformar uma vida e como compreender o cérebro pode mudar a maneira de trabalhar, liderar e empreender.

Durante muito tempo, a fórmula parecia simples: estudar mais, trabalhar mais, ter disciplina, buscar conhecimento e manter o foco. Mas, para André Buric, essa lógica deixa de explicar justamente o ponto em que muitas pessoas mais precisam de ajuda: quando sabem o que deveriam fazer, mas continuam sem conseguir fazer.

Fundador do BrainPower, Buric construiu sua trajetória a partir de uma combinação pouco convencional. Antes de se dedicar ao estudo do comportamento humano, passou 15 anos no mundo corporativo, com experiências em Citibank, Johnson & Johnson, BTG Pactual e Danone, chegando a ocupar uma posição executiva antes dos 30 anos.

Quando ter informação não é suficiente

Em 2014, depois de anos no ambiente corporativo, Buric percebeu que havia algo errado. Cansaço, fuga para telas, séries e sofá passaram a ocupar o espaço que antes deveria ser preenchido pela própria vida.

Um episódio aparentemente banal se tornou decisivo. Em uma manhã, diante de uma torneira com água gelada, percebeu que estava parado, sem conseguir iniciar uma ação simples. Mais tarde, no trabalho, mesmo tendo desligado o celular para se concentrar, sua mão continuava procurando o aparelho automaticamente.

A conclusão foi contundente: ele tinha conhecimento sobre o que deveria fazer, mas não tinha controle sobre o próprio comportamento. Um mês depois, decidiu abandonar a carreira corporativa para entender o que estava acontecendo consigo mesmo.

“Ele não te sabota por maldade, ele te sabota por economia.”

O resultado pode revelar o padrão

Um dos conceitos centrais apresentados por Buric é que comportamentos automáticos nem sempre são percebidos diretamente. Muitas vezes, eles aparecem através dos resultados que se repetem: o terceiro projeto que morre na mesma etapa, a mesma conversa difícil que é adiada ou o mesmo tipo de problema que volta todos os anos.

Para ele, quando um determinado resultado se repete, pode existir uma estrutura por trás dele. A proposta é observar os fatos antes de construir justificativas e identificar aquilo que continua acontecendo mesmo quando a pessoa acredita estar tentando mudar.

Procrastinação não é necessariamente bloqueio

Buric diferencia procrastinação e bloqueio interno. A procrastinação costuma ceder à pressão: quando o prazo se aproxima, o custo de não realizar a tarefa se torna maior e a pessoa acaba fazendo. O bloqueio funciona de maneira diferente. Mesmo diante de consequências concretas, a pessoa continua evitando aquilo que precisa fazer.

Muitas vezes, o problema não está na tarefa em si, mas no que ela representa: ser avaliado, ser visto errando ou descobrir que talvez não seja tão bom quanto gostaria de acreditar. Nesse cenário, técnicas tradicionais de produtividade podem não resolver a questão.

A era da informação também trouxe uma nova armadilha

Ao olhar para mais de uma década trabalhando com comportamento, Buric identifica uma mudança importante: as pessoas passaram a saber muito mais, mas isso não significa que estejam mudando mais.

Hoje é possível encontrar conteúdo sobre praticamente qualquer comportamento, método ou conceito psicológico. O problema é que consumir informação pode criar uma sensação de progresso sem que exista necessariamente transformação. Para Buric, o conteúdo ajuda a enxergar, mas depois do insight existe um trabalho de repetição e ambiente.

Neuroplasticidade sem fórmulas mágicas

A metodologia desenvolvida por Buric tem como base conceitos como neuroplasticidade, aprendizagem por associação e repetição, além da influência do contexto sobre o comportamento.

Ele diferencia ciência de promessas simplificadas de “reprogramação cerebral”. Para Buric, reprogramar não significa apenas substituir pensamentos negativos por frases positivas nem apagar completamente uma antiga maneira de funcionar. A ideia é construir uma nova via comportamental mais forte e fazer com que a antiga entre gradualmente em desuso.

Desde 2014, há quase 12 anos, o trabalho do BrainPower vem transformando esses conceitos em ferramentas aplicáveis à vida cotidiana e já alcançou mais de 20 mil alunos.

O ambiente pode vencer a força de vontade

Uma das experiências mais marcantes de sua trajetória aconteceu ainda no início da vida profissional, quando Buric morou em Londres e trabalhou em uma unidade da Starbucks. A regra era objetiva: os funcionários precisavam estar dentro da loja às 5h. Se chegassem depois de a loja estar aberta, estariam dispensados.

Durante aproximadamente cinco meses, ele acordou por volta das 3h30, enfrentou frio, chuva, transporte público e uma rotina difícil, sem atrasos. Para ele, a experiência mostrou que desenhar melhor o ambiente pode ser mais eficiente do que exigir cada vez mais força de vontade.

“Não porque eu virei uma pessoa disciplinada de um dia para o outro. Porque não existia a possibilidade da exceção.”

O impacto para quem empreende

Essa perspectiva ganha uma dimensão ainda maior quando aplicada ao universo empresarial. Para Buric, decisões tomadas sob pressão podem ser profundamente influenciadas pelo funcionamento do cérebro diante de situações percebidas como ameaça.

Quando isso acontece, o campo de visão pode se estreitar e o horizonte de tempo diminuir. Em decisões envolvendo sócios, contratos, demissões, preços ou investimentos, reagir rapidamente nem sempre significa decidir melhor.

Por isso, ele defende separar o que é realmente urgente daquilo que apenas produz barulho, criar um intervalo entre estímulo e resposta e evitar grandes decisões no pico da emoção. E isso vale tanto para o pânico quanto para a euforia.

Alta performance não deveria significar viver em guerra

No ambiente profissional, a expressão “alta performance” frequentemente aparece associada a mais esforço, mais horas de trabalho e mais intensidade. Buric propõe uma mudança de perspectiva.

Para ele, um dos maiores erros de quem busca alta performance é tentar aumentar a intensidade quando o verdadeiro problema está no atrito. A pessoa acorda mais cedo, compra outro curso, adota outro método e aumenta a cobrança, mas continua enfrentando internamente a mesma dificuldade.

Outro erro é copiar a rotina de pessoas consideradas bem-sucedidas sem considerar que aquela rotina é consequência de um contexto específico.

“Copiar a agenda de alguém sem copiar o contexto é copiar o sintoma.”

Comunicação: quando conteúdo não basta

A experiência corporativa também deixou uma marca profunda na maneira como Buric enxerga comunicação. No início da carreira, participou de uma apresentação importante diante da presidente da companhia. Preparou-se intensamente, ensaiou e dominou todo o conteúdo.

Depois dele, outro executivo apresentou um material claramente menos preparado. Mesmo assim, conseguiu prender a atenção da sala e tornou-se o assunto do almoço. A experiência ensinou uma lição que Buric levou para o trabalho atual: comunicação não é apenas transmitir informação. É criar conexão.

Inteligência artificial: o risco pode ser a atrofia

Em um cenário empresarial cada vez mais influenciado pela inteligência artificial, Buric chama atenção para um risco diferente daquele normalmente discutido. Para ele, a questão não está apenas em saber quais profissões serão substituídas pela tecnologia.

Existe também o risco de as pessoas deixarem de exercitar determinadas capacidades porque a máquina passou a fazer tudo com velocidade e eficiência.

“O risco real não é substituição, é atrofia.”

Na sua visão, a inteligência artificial pode multiplicar aquilo que encontra. Se houver organização, pode ampliar resultados. Se houver caos, pode ampliar o próprio caos.

O próximo passo do BrainPower

Atualmente, Buric trabalha em duas frentes que se complementam. A primeira é levar os conhecimentos sobre comportamento para dentro das empresas, utilizando sua experiência corporativa e sua formação em neurociência para trabalhar questões relacionadas a clientes, equipes, liderança, vendas e tomada de decisão. A segunda é continuar ajudando pessoas a compreender seus próprios padrões comportamentais. Mais de 20 mil alunos já passaram pelo BrainPower desde 2014.

Entre os projetos está o “Mergulho no Inconsciente”, uma imersão online e ao vivo conduzida por Buric, criada para trabalhar três dimensões da experiência mental: o que a pessoa pensa, o que sente e aquilo que funciona abaixo da consciência.

Uma nova definição de sucesso

Ao olhar para sua própria história, André Buric chegou a uma conclusão que ultrapassa produtividade ou carreira. Durante 15 anos, buscou respostas no próximo cargo, na próxima meta e na próxima conquista. Tinha formação, grandes empresas no currículo, posição executiva e remuneração elevada, mas continuava sentindo que alguma coisa estava fora do lugar.

Ao deixar o mundo corporativo em 2014, passou a investigar justamente essa questão. Hoje, sua mensagem é menos sobre trabalhar mais e mais sobre compreender aquilo que está por trás das próprias decisões.

Para ele, a vida que uma pessoa consegue sustentar está diretamente relacionada aos padrões que seu cérebro aprendeu a manter. E essa não precisa ser uma sentença definitiva. Pode ser o ponto de partida.

“Antes de querer vencer o mundo, vença a si mesmo.”


André Buric

Fundador do BrainPower e mestre em Psicologia e Neurociência da Saúde Mental pelo King’s College London. Passou 15 anos no ambiente corporativo, com experiências em Citibank, Johnson & Johnson, BTG Pactual e Danone. Desde 2014, atua com neurociência aplicada a comportamento, comunicação e vendas. O BrainPower já alcançou mais de 20 mil alunos.

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