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Dólar dispara após eleição e reacende debate sobre internacionalização de empresas brasileiras

Especialista em expansão internacional alerta que decisões estratégicas precisam de planejamento, análise de mercado e visão de longo prazo, e não devem ser motivadas por oscilações cambiais pontuais.

A volatilidade do mercado financeiro voltou a colocar a internacionalização no radar de empresários brasileiros. Após a disparada do dólar e a forte queda da Bolsa de Valores na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno da eleição presidencial, a possibilidade de levar operações para outros países ganhou força nas discussões sobre proteção patrimonial, diversificação de receitas e crescimento empresarial.

Para Douglas Bubna, empresário especializado em investimentos e expansão de negócios entre Brasil e Estados Unidos, porém, decisões dessa dimensão não podem ser tomadas sob a pressão de um único pregão. Na avaliação do executivo, a internacionalização deve fazer parte de uma estratégia estruturada, construída ao longo de anos, e não representar uma reação imediata à instabilidade econômica ou política.

O movimento do câmbio chamou a atenção pela velocidade. Segundo os dados apresentados no texto original, o dólar avançou 8,21% na segunda-feira, encerrando o dia cotado a R$ 5,40, enquanto o Ibovespa recuou 13,88%. A intensidade da queda levou a B3 a acionar o mecanismo de interrupção temporária das negociações, conhecido como circuit breaker. No pregão seguinte, a moeda americana devolveu parte da alta, recuando 0,97%, para R$ 5,35.

Para Bubna, a reação do mercado evidencia como movimentos bruscos podem influenciar decisões empresariais sem necessariamente representar uma mudança estrutural nas condições de negócio.

“O que assustou o mercado foi a velocidade do movimento, muito mais do que o patamar. E susto é o pior estado de espírito para decidir onde uma empresa vai operar na próxima década”, afirma.

Internacionalização exige mais do que proteção cambial

A busca por mercados internacionais costuma ganhar força em períodos de incerteza. Além da possibilidade de diversificar receitas em moedas diferentes do real, a presença no exterior pode ampliar o acesso a consumidores, investidores, fornecedores e oportunidades de expansão.

Entretanto, os efeitos da variação cambial não são iguais para todas as empresas. Negócios que dependem da importação de máquinas, equipamentos e insumos podem enfrentar aumento de custos e pressão sobre o fluxo de caixa. Já empresas exportadoras ou com receitas em dólar podem se beneficiar da conversão dos valores para a moeda brasileira.

Por isso, o especialista defende que a análise deve partir da estrutura financeira e operacional de cada companhia, considerando sua exposição cambial, seus custos, suas fontes de receita e sua capacidade de atuar em diferentes mercados.

“Tentar adivinhar a cotação de amanhã ajuda pouco. A pergunta que importa é quanto do futuro da empresa está preso a um único mercado e a uma única moeda”, destaca.

A diversificação internacional, nessa perspectiva, não deve ser tratada apenas como uma forma de proteger o patrimônio em momentos de crise. Ela precisa estar conectada aos objetivos de crescimento, à capacidade de execução e à sustentabilidade do negócio no longo prazo.

Expandir para os Estados Unidos exige adaptação

O mercado americano pode representar oportunidades para empresas brasileiras, mas entrar nesse ambiente envolve desafios que vão além da disponibilidade de capital.

Uma rede de clínicas que decide abrir unidades nos Estados Unidos, por exemplo, precisa compreender a legislação aplicável, contratar e capacitar profissionais, atender às exigências regulatórias do setor e calcular os custos de conquistar clientes em um mercado no qual sua marca ainda não é conhecida.

Também é necessário garantir que os padrões de atendimento e gestão sejam mantidos à medida que a operação cresce.

“Abrir um endereço lá fora é a parte fácil. O difícil é fazer a terceira unidade funcionar tão bem quanto a primeira, e isso depende de gestão próxima e disciplina, coisa que nenhum aporte substitui”, afirma Bubna.

O mesmo princípio vale para investimentos imobiliários. A aquisição de um terreno, por mais promissora que pareça, não garante o sucesso de um empreendimento. É preciso avaliar o uso permitido do imóvel, as exigências para aprovação do projeto, os prazos de execução e a demanda local.

“Capital sem plano executável e sem gente capaz de tocar a obra vira problema caro”, ressalta.

Em ambos os segmentos, a internacionalização exige conhecimento das regras locais, parceiros qualificados e planejamento operacional capaz de transformar o investimento em uma atividade sustentável.

A internacionalização também acontece no sentido inverso

A relação entre Brasil e Estados Unidos não se limita à saída de empresas brasileiras em busca de novas oportunidades. Companhias americanas também procuram parceiros locais, canais de distribuição e acesso ao mercado consumidor brasileiro.

Esse fluxo de negócios cria oportunidades para empresas que conseguem atuar como pontes entre os dois países, conectando investidores, empreendedores e operações em diferentes ambientes regulatórios e culturais.

Na avaliação de Bubna, um dos principais obstáculos à expansão internacional é a dificuldade de encontrar profissionais e parceiros que compreendam as particularidades de cada mercado. Conhecer as regras, interpretar as necessidades comerciais e estabelecer relações de confiança são fatores fundamentais para reduzir riscos e facilitar a execução dos projetos.

Assim, a capacidade de operar em outro país depende não apenas do investimento financeiro, mas também da qualidade das decisões e da experiência de quem conduz a expansão.

Planejamento é a principal defesa contra a volatilidade

As oscilações do dólar e da Bolsa não são fenômenos exclusivos de períodos eleitorais. Decisões sobre juros, condições de crédito e mudanças na política monetária dos Estados Unidos, incluindo as medidas do Federal Reserve, também influenciam os fluxos internacionais de capital e as expectativas dos investidores.

Nesse cenário, empresas que deixam para avaliar a diversificação somente quando a instabilidade se intensifica correm o risco de tomar decisões sob pressão, sem tempo suficiente para estudar alternativas e estruturar uma operação internacional.

Para o especialista, o caminho mais consistente é antecipar esse movimento, avaliar oportunidades, testar hipóteses, construir relacionamentos e desenvolver uma estrutura de gestão preparada para atuar em outros mercados.

“Presença internacional se constrói em anos, testando hipóteses, formando relações e corrigindo rota. Quem começa agora, com método, estará mais protegido no próximo susto. Quem começa por causa dele quase sempre chega atrasado”, conclui.

Mais do que uma resposta à disparada do dólar, a internacionalização pode representar uma frente estratégica de crescimento e diversificação. O resultado, contudo, dependerá da capacidade de cada empresa de transformar oportunidades externas em operações viáveis, com planejamento, conhecimento de mercado e visão de longo prazo.


Sobre Douglas Bubna

Douglas Bubna é empresário com mais de 16 anos de experiência em estratégia, desenvolvimento de negócios, Private Equity, mercado imobiliário, investimentos e expansão empresarial. É fundador e CEO da Head Oversea, empresa com atuação no desenvolvimento e na expansão de negócios nos Estados Unidos.

Ao longo de sua carreira, passou por empresas como LPL Consultoria Tributária, Groupon, Raízen, Oi/Telemar e Heineken. É graduado em Administração de Empresas e possui MBA em Gestão de Marketing.

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