Autocobrança excessiva pode afetar o sono, a concentração e a confiança dos estudantes; psicóloga do Bernoulli Educação orienta como equilibrar a preparação para o exame
A preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026 envolve mais do que revisar conteúdos e resolver questões. Para muitos estudantes, a expectativa de conquistar uma vaga na universidade, somada à cobrança familiar e à comparação com outros candidatos, pode transformar a rotina de estudos em uma fonte constante de ansiedade.
Embora a pressão por resultados possa funcionar como estímulo para manter a disciplina, o excesso de preocupação tende a comprometer o bem-estar e a capacidade de concentração. Dores de cabeça, alterações no sono, cansaço frequente e dificuldade para manter o foco estão entre os sinais que merecem atenção durante a preparação.
Segundo Marina Ansaloni, psicóloga do Bernoulli Educação, é importante observar quando a preocupação com o desempenho deixa de contribuir para a organização dos estudos e começa a prejudicar a rotina do estudante.
“Na reta final, é natural que o estudante sinta uma pressão maior diante da importância da prova. No entanto, quando essa preocupação passa a prejudicar o sono, a concentração ou a confiança na própria capacidade, é importante observar esses sinais. Aumentar as horas de estudo nem sempre é a melhor solução, porque o equilíbrio também faz parte da preparação”, explica.
Cansaço e insegurança podem comprometer a preparação
A pressão acadêmica é uma realidade para muitos jovens que se preparam para processos seletivos. A necessidade de conciliar revisões, simulados e expectativas pessoais pode gerar a sensação de que nunca há tempo suficiente para estudar tudo o que será cobrado.
Um levantamento realizado pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com o Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), dimensiona parte desse cenário. Segundo o estudo, 38,9% dos entrevistados relataram sentir-se bastante ou totalmente esgotados ou sob pressão. Outros 33,9% afirmaram ter perdido o sono por causa de preocupações.
A pesquisa também identificou dificuldades relacionadas à autoconfiança: 22,1% disseram ter perdido bastante ou totalmente a confiança em si mesmos, enquanto 22% relataram sentir-se bastante ou totalmente incapazes de superar suas dificuldades.
Os dados reforçam a importância de observar os aspectos emocionais durante a vida escolar. Quando o cansaço e a preocupação começam a interferir nas atividades cotidianas, insistir em uma rotina cada vez mais intensa pode aumentar o desgaste, em vez de favorecer o aprendizado.
Como organizar os estudos sem aumentar a ansiedade
Uma preparação eficiente não depende necessariamente de passar mais horas diante dos livros. A organização do tempo, a definição de prioridades e a adoção de uma rotina compatível com as necessidades individuais podem ajudar a tornar o processo mais sustentável.
Entre as estratégias recomendadas estão estabelecer metas realistas, identificar os conteúdos que precisam de maior atenção e dividir as atividades em blocos de estudo com intervalos regulares. Esse planejamento permite acompanhar o progresso sem transformar cada sessão de estudos em uma cobrança por desempenho.
Manter horários regulares de sono e reservar momentos para descanso e lazer também faz parte da preparação. Da mesma forma, comparar constantemente os próprios resultados com os de outros candidatos pode aumentar a insegurança e desviar a atenção da evolução individual.
Na reta final, a prioridade deve ser revisar os conteúdos mais relevantes, retomar questões em que houve dificuldade e evitar mudanças radicais na rotina. O objetivo é chegar ao exame com uma preparação organizada, sem comprometer o descanso necessário.
Técnicas de relaxamento ajudam a lidar com a pressão
Além do planejamento, algumas práticas simples podem auxiliar no controle da tensão durante os estudos. Exercícios de respiração lenta, alongamentos leves nos intervalos e breves momentos de relaxamento são alternativas para interromper ciclos de preocupação e recuperar a atenção.
Na semana anterior à prova, também é recomendável organizar antecipadamente os documentos, os materiais permitidos e as informações necessárias para o dia do exame. Reduzir decisões de última hora pode evitar preocupações adicionais em um período naturalmente marcado pela expectativa.
“Controlar a ansiedade não significa deixar de sentir medo ou preocupação, mas aprender a lidar com essas emoções sem permitir que elas determinem todas as decisões. Ter um planejamento possível, reconhecer os próprios limites e entender que uma dificuldade não define toda a preparação são atitudes que ajudam a enfrentar a prova com mais equilíbrio”, orienta Marina Ansaloni.
A especialista destaca, assim, a importância de reconhecer que a preparação não precisa ser perfeita para ser consistente. Dificuldades pontuais, resultados abaixo do esperado em simulados e momentos de insegurança fazem parte do processo de aprendizagem e não devem ser interpretados como sinais de incapacidade. O mais importante é utilizar essas experiências para identificar pontos que precisam ser reforçados, ajustar a rotina de estudos e seguir avançando de forma gradual.
A preparação para uma prova exige não apenas conhecimento técnico, mas também equilíbrio emocional, disciplina e capacidade de adaptação. Ao compreender que o desempenho pode variar ao longo do caminho, o estudante passa a lidar melhor com as dificuldades e a construir uma preparação mais realista, consistente e sustentável.


