Com inovação, cultura e propósito, o empreendedor cria um ecossistema que vai além das cafeterias e quer levar a identidade do café brasileiro para o mundo.
Para Gabriel Davi, o café nunca foi apenas uma bebida. A partir de uma história familiar ligada à produção cafeeira e de uma inquietação sobre o posicionamento do Brasil no mercado mundial, o empreendedor criou a Mula Coffee com uma ambição clara: transformar um dos maiores símbolos do país em uma marca culturalmente relevante, capaz de dialogar com brasileiros e consumidores de diferentes partes do mundo.

“A maior potência do café não está apenas naquilo que existe dentro da xícara. Está naquilo que acontece ao redor dela”, afirma Gabriel.
Para ele, o café funciona como uma linguagem social, capaz de aproximar pessoas, estimular conversas, criar conexões e até abrir portas para negócios. Essa visão também está relacionada à sua própria trajetória, marcada pela proximidade com famílias ligadas ao café e por referências em Londrina, no Paraná, e no Cerrado Mineiro.
Uma marca que nasceu com ambição global

A Mula Coffee foi concebida para unir cafeteria, indústria, experiência, cultura e negócios em uma mesma plataforma. Para Gabriel, o Brasil possui escala, território, diversidade e qualidade na produção de café, mas ainda existe espaço para uma marca brasileira com força suficiente para representar o país internacionalmente.
“A Mula Coffee começa pequena, embaixo, respeitando cada processo, aprendendo e construindo passo a passo. Mas nasce olhando para o mundo”, explica.
A proposta é construir uma marca que tenha o café como produto, mas que consiga criar significado para além dele.
Café como ponto de encontro
A identidade da Mula nasceu também de uma preocupação com uma sociedade marcada pela velocidade, pelo excesso de estímulos e pela polarização. Foi nesse cenário que surgiu uma das ideias centrais da marca: usar o café para criar pontes.
A estética da Mula busca referências na cultura brasileira, passando pelo barroco, pelo modernismo e por diferentes manifestações artísticas e culturais. Arquitetura, cores, música, cardápio, design, programação e eventos fazem parte da narrativa da marca.
“Eu queria que a Mula fosse esse elemento de juntar as pessoas”, afirma Gabriel.
Para ele, o café pode ser simultaneamente uma bebida energética e um momento de descompressão, conversa e conexão humana. A marca procura devolver ao café uma dimensão humana que, segundo o empreendedor, o mercado foi perdendo.
Tecnologia para aproximar o consumidor da origem
A inovação ocupa espaço central na estratégia. Um dos exemplos é a rastreabilidade dos cafés: por meio de um QR Code na embalagem, o consumidor pode acessar informações sobre o grão, suas características sensoriais e sua história. Gabriel define a ferramenta como o “RG do café”.
Nas novas lojas, a proposta também envolve identificar o perfil de paladar do consumidor e oferecer uma experiência de torra personalizada. A tecnologia, nesse contexto, aparece como uma ferramenta para aproximar o consumidor da história do café.
Uma parceria que ajudou a validar a visão
A relação com a Stone começou no balcão da primeira loja da Mula, em Pinheiros. A parceria evoluiu para eventos, iniciativas de relacionamento e uma aproximação maior com o segmento B2B, com o objetivo de levar o café para dentro das empresas.
Segundo Gabriel, a parceria ajudou a estruturar uma visão mais ampla para a empresa, que passou a contemplar eventos, operações corporativas, assinaturas B2B e B2C, produtos licenciados, lojas próprias, franquias e uma plataforma educacional.
O objetivo é transformar o tradicional “café da firma” em uma experiência de maior qualidade e significado, aproximando as empresas da origem e das características do produto.
O desafio de transformar uma cadeia inteira

Para Gabriel, o maior desafio da Mula não foi simplesmente criar um café melhor. A ambição é transformar a maneira como o café é produzido, industrializado, comercializado e consumido.
Isso envolve produtores, cooperativas, pesquisa, logística, indústria, torrefação, embalagens e varejo. Ao mesmo tempo, existe o desafio de educar o consumidor para perceber que café não é um produto único e homogêneo.
“Não basta produzir um café excelente. É preciso fazer alguém entender por que ele é excelente”, resume.
A Mula organiza seus cafés considerando diferentes tendências sensoriais, como perfis frutados, cítricos e doces, buscando ajudar o consumidor a descobrir suas próprias preferências.
A cafeteria como experiência
Na estratégia da Mula, a loja física não é apenas um ponto de venda. Arquitetura, design e experiências são utilizados para aumentar o valor percebido do produto e criar um ambiente de conexão.
Gabriel defende que a cafeteria brasileira pode ser marcada por conversa, informalidade, encontros e hospitalidade. É daí que surge o conceito de “second place”: a loja como um dos principais ambientes de convivência do consumidor. Coffee parties, clubes do livro, brunches, happy hours, eventos e encontros fazem parte dessa estratégia A intenção é que a cafeteria seja um espaço para diferentes momentos da vida, e não apenas um endereço para comprar uma bebida.
Coração e cabeça na construção de um legado

Para Gabriel, o empreendedor que constrói uma marca capaz de deixar um legado precisa equilibrar razão e emoção. Sua visão é de uma relação entre intuição, estratégia, planejamento e execução.
“O coração aponta o caminho. A cabeça testa, organiza e sustenta a caminhada.”
Na sua visão, legado acontece quando algo que nasceu dentro de uma pessoa consegue se tornar maior do que ela própria. É esse princípio que orienta sua ambição para a Mula Coffee: construir uma marca que ultrapasse a trajetória individual de seu fundador e conquiste relevância no mercado.
Crescer sem perder a essência
Os próximos passos passam pela expansão de lojas próprias e franquias, mas Gabriel pretende evitar uma padronização excessiva. A identidade da marca deve ser preservada, enquanto sua manifestação pode dialogar com as características de cada território. Além das lojas, a estratégia contempla eventos, indústria, torrefação, atendimento corporativo, cafés personalizados para empresas, educação, experiências e assinaturas.
O conceito “POWERED BY MULA” prevê cafés próprios para empresas, desenvolvidos de acordo com seus perfis e culturas. Dessa forma, a marca busca ampliar sua presença no mercado corporativo sem depender exclusivamente de unidades físicas. A expansão pode acontecer por diferentes caminhos, desde uma franquia até um evento, uma assinatura ou um produto.
“A escala não pode matar a essência”
Para Gabriel, o balcão representa muito mais do que o local onde o pedido é feito. É ali que acontecem as relações, a hospitalidade e a construção da cultura da empresa. Por isso, profissionais de diferentes áreas precisam vivenciar essa experiência. A proposta é garantir que todos compreendam o produto, o consumidor e o jeito de fazer da Mula.
“A Mula pode crescer, mas eu não quero que ela perca o balcão.”
O desafio é fazer com que o crescimento não comprometa a qualidade, a atenção e a proximidade com o cliente. Na visão do empreendedor, replicar uma fachada, um cardápio ou uma receita é diferente de transmitir uma cultura. A essência da marca precisa ser vivida em cada unidade.
Pensar o negócio como um ecossistema
Uma das decisões mais arriscadas tomadas por Gabriel foi não escolher uma única especialidade para a Mula Coffee. Ele decidiu integrar arquitetura, design, produto, indústria, experiência, comunicação, estratégia e negócio. Inspirado pela visão do designer Virgil Abloh sobre o papel contemporâneo da direção criativa, o empreendedor buscou fazer com que todas essas áreas trabalhassem em conjunto.
A consequência foi transformar a Mula em um ecossistema que reúne diferentes frentes em torno do café. Para Gabriel, o empreendedor contemporâneo não precisa executar tudo sozinho, mas precisa compreender as diferentes áreas e conectá-las em torno de uma mesma visão. Essa integração, segundo ele, permite que cada iniciativa contribua para uma identidade comum, em vez de funcionar como uma decisão isolada.
O futuro do café está além da cafeteria
Gabriel identifica oportunidades em cafés gelados, bebidas proteicas e, especialmente, no drip coffee, que une a tradição brasileira do café coado à praticidade e aos novos hábitos de consumo. A intenção é desenvolver uma presença relevante nesse segmento, aproximando uma tradição brasileira de formatos que podem acompanhar o consumidor em diferentes momentos do dia.
Para ele, o futuro das cafeterias também passa pela capacidade de levar o café para diferentes lugares e momentos. Eventos, empresas, assinaturas e outros formatos podem ampliar significativamente o alcance da marca.
“A loja é o ponto de encontro, mas o negócio não pode terminar na porta da loja.”
A visão reforça a ideia de que o espaço físico é apenas uma das formas de relacionamento com o consumidor. O negócio pode se expandir por meio de produtos, experiências e parcerias que mantenham o café como elemento central.
A mula como símbolo do Brasil

O nome da empresa carrega uma história ligada à expansão comercial brasileira e aos ciclos de produção, transporte e comércio do café. Historicamente, as mulas tiveram papel importante no transporte de mercadorias por diferentes regiões do país.
Para Gabriel, o animal também representa força, resistência, adaptação e capacidade de atravessar diferentes territórios. Esses atributos dialogam com a ambição da marca: ser global sem deixar de ser profundamente brasileira, tecnológica sem perder a dimensão humana e replicável sem se tornar padronizada. A escolha do nome também se relaciona à proposta de valorizar a identidade nacional e mostrar que a cultura brasileira pode servir de base para marcas competitivas internacionalmente.
Mais do que vender café, valorizar o Brasil
No fim, a ambição de Gabriel Davi vai além do mercado de cafés. Ele deseja que uma pessoa entre em uma loja da Mula para tomar café e saia levando consigo uma percepção diferente sobre o Brasil e sobre sua própria identidade. A marca pretende criar pontes entre pessoas, negócios, passado e futuro, tradição e tecnologia, campo e cidade, produtor e consumidor.
Para Gabriel, o café é o ponto de partida para uma proposta maior: transformar um patrimônio brasileiro em uma plataforma contemporânea de negócios, cultura, educação e relacionamento. A Mula Coffee busca demonstrar que o Brasil pode combinar escala e qualidade, tradição e inovação, produto e experiência. Mais do que levar cafeterias para outras cidades ou países, a ambição é fazer com que a identidade brasileira se torne parte essencial da experiência oferecida pela marca.
“O café é o produto. A conexão é o impacto. E o Brasil é a nossa história.”
Essa frase sintetiza a visão de Gabriel para a Mula Coffee: construir uma marca que utilize o café como ponto de partida para valorizar a cultura brasileira, aproximar pessoas e apresentar ao mundo novas possibilidades para um dos produtos mais representativos do país.


