Em Liderança Imperfeita”, Lucas Rezende usa a trajetória de um CEO fictício para abordar problemas de cultura organizacional, rentabilidade, sociedade empresarial e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
A dificuldade de transformar uma empresa que cresceu no improviso em um negócio orientado por processos, indicadores e decisões financeiras está no centro de Liderança Imperfeita – A história de um CEO improvável, livro de estreia do executivo de tecnologia Lucas Rezende. A obra usa a ficção para discutir desafios enfrentados por gestores, como identificar operações deficitárias, conduzir mudanças organizacionais e lidar com as responsabilidades da liderança.
Cofundador e CEO da Guiando, empresa de tecnologia adquirida pelo grupo catarinense Selbetti em 2026, Rezende leva à narrativa experiências acumuladas ao longo da carreira. O livro acompanha Romão F. Rocha, que assume a direção de uma agência de comunicação acreditando que os problemas do negócio são operacionais. Ao longo de dois anos, porém, percebe que as dificuldades envolvem também cultura organizacional, finanças, relações humanas e estrutura societária.
A história é construída a partir de decisões e impasses cotidianos, em vez de apresentar conceitos de gestão de maneira exclusivamente teórica. A proposta segue o modelo de A Meta, de Eliyahu Goldratt e Jeff Cox, obra que popularizou o uso da ficção para discutir problemas de administração e desempenho empresarial.
Quando o crescimento não significa rentabilidade
Um dos conflitos centrais do livro surge quando o protagonista prepara a primeira demonstração de resultado do exercício (DRE) por cliente da agência. A análise revela que uma das contas mais valorizadas pela empresa, destacada no site institucional e frequentemente citada em reuniões, gera prejuízo.
O episódio aborda um problema relevante para empresas que crescem sem acompanhar de perto a rentabilidade de cada operação: a receita e a visibilidade de um cliente não garantem que ele contribua positivamente para o resultado financeiro.
A narrativa também apresenta conceitos como EBITDA, OKRs, MVP, Cap Table e valuation, com notas explicativas ao longo dos capítulos. A intenção é aproximar o leitor de ferramentas utilizadas na gestão empresarial sem exigir conhecimento técnico prévio.
A bibliografia reúne 44 referências, incluindo trabalhos de Edgar Schein, Amy Edmondson e Clayton Christensen, além do código de governança do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
Mudanças organizacionais e o custo da transição
Outro eixo da trama é a dificuldade de implementar mudanças em ambientes resistentes a novas práticas. Na agência fictícia, as tentativas de transformação são recebidas com ironia e desconfiança, enquanto a equipe enfrenta a queda temporária de desempenho durante a transição entre modelos de trabalho.
O livro dedica um capítulo a esse período, em que a empresa já perdeu parte da eficiência do sistema antigo, mas ainda não consolidou os ganhos esperados com o novo modelo.
A situação representa um dos dilemas da gestão de mudanças: os resultados podem piorar antes que os novos processos estejam plenamente incorporados. A narrativa explora como esse intervalo pode levar gestores a abandonar iniciativas antes que seus efeitos sejam avaliados.
A origem do projeto está nos cadernos de anotações que Rezende acumulou durante a carreira e reencontrou enquanto organizava o escritório. Segundo o autor, a intenção era abordar a trajetória intermediária do empreendedor, marcada por erros, ajustes e decisões difíceis.
“Eu queria contar sobre o meio do caminho”, afirma Rezende, ao explicar a diferença entre a proposta do livro, os manuais de gestão e as biografias de executivos bem-sucedidos.
Sociedade empresarial e experiência de mercado
A obra também trata de estrutura societária, participação dos sócios e valuation, temas que fazem parte da experiência profissional do autor.
Em junho de 2026, Rezende conduziu a negociação que resultou na aquisição da Guiando pela Selbetti. A operação aproxima a experiência empresarial do executivo de um dos temas abordados na ficção: as decisões relacionadas à sociedade e à construção de valor de uma empresa.
A trajetória do protagonista, no entanto, não se limita aos números. O livro propõe uma discussão sobre a relação entre desempenho, cultura organizacional e capacidade de liderança, mostrando como decisões financeiras e operacionais também afetam pessoas e relações dentro da empresa.
Liderança também envolve a vida pessoal
A conciliação entre carreira e vida familiar é outro elemento da narrativa. Romão assume a direção da agência enquanto a mulher está grávida e precisa dividir a atenção entre as decisões do negócio e a chegada do primeiro filho.
A rotina inclui noites maldormidas, dificuldades com os cuidados do bebê e o sentimento de não estar presente em momentos importantes da família. O conflito amplia a discussão sobre liderança para além dos resultados corporativos e aborda os limites do controle que um gestor pode exercer sobre a própria rotina.
Para Rezende, a proposta é mostrar que resultados consistentes não dependem necessariamente de líderes perfeitos, mas de trabalho, criatividade, inovação e dedicação às pessoas.
“Eles vêm da soma de trabalho duro, criatividade, inovação e dedicação às pessoas, e nada disso exige perfeição. Exige constância”, afirma o autor.
Primeiro livro de uma trilogia
Publicado pela editora Novo Arco, Liderança Imperfeita – A história de um CEO improvável tem 182 páginas e é o primeiro volume de uma trilogia planejada por Rezende.
A obra se dirige especialmente a empreendedores e gestores de pequenas e médias empresas que desenvolveram seus negócios com base no talento e na experiência prática, mas passaram a enfrentar limitações relacionadas à ausência de processos, métodos e indicadores. Também busca dialogar com profissionais promovidos a posições de liderança que precisam assumir responsabilidades para as quais nem sempre receberam preparação formal.
Ao combinar situações ficcionais com conceitos de administração, o livro procura apresentar ferramentas de gestão a leitores que não necessariamente têm formação na área. A proposta é usar os dilemas dos personagens como ponto de partida para refletir sobre decisões que fazem parte da rotina de empresas em diferentes estágios de desenvolvimento.


