Para a Você & Negócios, a médica radiologista Dra. Cecília Debs destaca a importância da prevenção, do diagnóstico por imagem e de um atendimento humanizado para ampliar as possibilidades de tratamento do câncer de mama.
A saúde da mulher exige atenção contínua, informação de qualidade e acesso a exames capazes de identificar doenças em seus estágios iniciais. Quando o assunto é câncer de mama, o diagnóstico precoce pode fazer uma diferença decisiva nas possibilidades de tratamento e na qualidade de vida das pacientes. Nesse cenário, a Radiologia Mamária ocupa um papel fundamental, combinando tecnologia, conhecimento científico e precisão diagnóstica.
Para a Dra. Cecília Debs, médica radiologista com doutorado em Radiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), cuidar da saúde das mamas vai muito além de interpretar imagens. É compreender que, por trás de cada exame, existe uma mulher com uma história, expectativas, medos e projetos de vida.

Essa visão humanizada acompanha sua trajetória profissional desde o início da residência médica. Ao entrar em contato com pacientes que chegavam ao tratamento em estágios avançados da doença, a médica percebeu o quanto a identificação precoce dos tumores poderia contribuir para tratamentos menos invasivos e melhores perspectivas para as mulheres.
“Foi nesse momento que compreendi que a Radiologia Mamária poderia ser muito mais do que identificar uma doença”, relata Cecília. Para ela, a especialidade também pode contribuir para preservar a autoestima, favorecer uma recuperação menos complexa e ampliar as possibilidades terapêuticas.
A importância do diagnóstico precoce
O câncer de mama está entre os principais desafios da saúde feminina, e a identificação da doença em fases iniciais é uma das estratégias mais importantes para melhorar os resultados do tratamento. Quando um tumor é identificado ainda pequeno e localizado, as possibilidades de intervenções menos agressivas e de tratamento curativo podem ser maiores. É nesse contexto que a mamografia assume protagonismo. O exame é considerado o principal método de rastreamento do câncer de mama e tem evidências de redução da mortalidade quando realizado de forma sistemática na população indicada.
Segundo Cecília Debs, mulheres não devem esperar o aparecimento de sintomas para começar a cuidar das mamas. O rastreamento tem justamente o objetivo de identificar alterações antes que elas sejam percebidas pela própria paciente.
A médica ressalta, entretanto, que a estratégia de acompanhamento deve considerar o perfil individual de cada mulher, incluindo idade, histórico familiar e fatores de risco. Mulheres com risco elevado podem precisar de protocolos específicos, com exames adicionais e acompanhamento diferenciado.
Mamografia, ultrassom e ressonância: cada exame tem sua função
Embora sejam frequentemente associados, os exames de imagem das mamas possuem indicações e características diferentes. Compreender essas diferenças ajuda a combater a desinformação e evita que mulheres deixem de realizar procedimentos importantes.
A mamografia tem papel central no rastreamento do câncer de mama. O ultrassom pode ser utilizado na investigação de alterações clínicas, na avaliação de achados identificados em outros exames e como método complementar em situações específicas. Já a ressonância magnética possui indicações próprias, especialmente em determinadas pacientes com risco elevado.
“Talvez o principal equívoco seja justamente pensar que existe um exame único capaz de responder a todas as perguntas”, explica a radiologista.
A escolha dos métodos deve ser individualizada e orientada por profissionais de saúde. Um exame complementar não substitui automaticamente outro, e a realização de ultrassonografia, por exemplo, não elimina a necessidade da mamografia quando esta estiver indicada.
Ciência e pesquisa a serviço da saúde feminina
A trajetória acadêmica de Cecília Debs também demonstra como a pesquisa científica pode contribuir para aprimorar o diagnóstico. Durante o doutorado direto no Instituto de Radiologia da FMUSP, sob orientação do professor doutor Nestor de Barros, ela estudou os aspectos radiológicos dos tumores de mama triplo-negativos. Esses tumores podem apresentar características de imagem semelhantes às de lesões benignas, o que torna importante aprofundar o conhecimento sobre seus padrões de apresentação e os caminhos para uma investigação diagnóstica adequada.
A pesquisa também aproximou a médica de novas possibilidades para a Radiologia Mamária. Com os avanços da inteligência artificial e da radiogenômica, cresce o interesse em compreender como determinadas características observadas nos exames podem se relacionar ao comportamento biológico e ao perfil molecular dos tumores.
Atualmente, Cecília dá continuidade a essa linha de investigação em seu pós-doutorado. A perspectiva é que o conhecimento extraído das imagens se torne cada vez mais sofisticado, contribuindo para avaliações individualizadas e para decisões clínicas mais precisas. Essas tecnologias, porém, seguem em desenvolvimento e não substituem, por si só, os métodos diagnósticos estabelecidos.
Acolhimento também faz parte do exame
Além da precisão técnica, a experiência da paciente durante os procedimentos é um aspecto importante do cuidado. O medo de sentir dor, a ansiedade diante de um possível diagnóstico e a exposição do corpo podem tornar a realização dos exames um momento delicado.
Para Cecília, o acolhimento começa antes mesmo de a paciente entrar na sala de exame. Explicar cada etapa, esclarecer dúvidas, orientar sobre o posicionamento e respeitar os limites individuais são atitudes que ajudam a construir confiança.
A médica também chama atenção para os mitos que ainda circulam sobre a saúde das mamas. A mamografia não é considerada um exame que provoca câncer, e não há fundamento para afirmar que uma biópsia, quando adequadamente realizada, espalha a doença. Embora a compressão mamária possa causar desconforto, a técnica é importante para a obtenção de imagens de qualidade.
Nesse processo, a comunicação entre médico e paciente tem papel decisivo. Informações claras sobre os benefícios, as limitações e as indicações de cada procedimento ajudam a reduzir receios e favorecem decisões conscientes.
O cuidado integrado faz a diferença
A investigação de uma alteração mamária pode envolver diferentes profissionais, como radiologistas, mastologistas, ginecologistas, oncologistas e patologistas. Para a médica, a comunicação entre essas especialidades é essencial para que a paciente receba um acompanhamento coerente e completo.
Um exemplo é a chamada concordância anatomorradiológica, realizada após determinados procedimentos de biópsia. Nessa avaliação, o resultado da análise do tecido é comparado com o que foi observado nos exames de imagem, verificando se as informações são compatíveis com a suspeita clínica. Caso exista alguma discordância, ela precisa ser identificada e comunicada para que a investigação possa prosseguir adequadamente.
Essa integração demonstra que o trabalho do radiologista não se limita à emissão de um laudo. A interpretação dos resultados e o diálogo com os demais profissionais ajudam a orientar as próximas etapas do cuidado.
Informação como ferramenta de prevenção
Para ampliar o acesso à saúde, é necessário que a informação científica chegue às mulheres de maneira clara e responsável. Conscientizar não significa apenas recomendar exames, mas explicar para quem são indicados, quando devem ser realizados e por que são importantes. A orientação adequada também permite reconhecer fatores de risco, compreender as possibilidades de rastreamento e evitar que informações falsas interfiram nas decisões de saúde.
Nesse sentido, a prevenção envolve tanto o acompanhamento médico quanto a capacidade de participar ativamente das escolhas relacionadas ao próprio corpo. Conhecer o histórico familiar, buscar orientação profissional e manter os exames em dia, conforme as recomendações individualizadas, são atitudes importantes.
Uma medicina que enxerga além da imagem
Ao longo de sua carreira, Cecília Debs também contribuiu para a formação de outros profissionais, compartilhando conhecimentos em Radiologia Mamária e ajudando a ampliar a capacitação técnica na região em que atuava. Para ela, disseminar conhecimento é uma forma de multiplicar o impacto do cuidado. Quanto mais profissionais estiverem preparados para reconhecer alterações e conduzir investigações adequadas, maiores serão as oportunidades de oferecer um atendimento qualificado às pacientes.
Sua visão sobre a medicina parte de um princípio simples: a excelência técnica precisa caminhar ao lado da empatia. Uma imagem pode revelar sinais importantes sobre a saúde, mas é a compreensão da pessoa por trás daquele exame que dá sentido ao atendimento.
Em um cenário no qual informação, tecnologia e prevenção se tornam cada vez mais importantes, a Radiologia Mamária reforça seu papel na jornada de cuidado da mulher. E a mensagem que fica é direta: não é necessário esperar o surgimento de sintomas para buscar orientação. O acompanhamento adequado e o diagnóstico oportuno podem abrir caminhos para tratamentos mais eficazes e para melhores perspectivas de vida. Porque cuidar da saúde das mamas é, acima de tudo, cuidar de histórias, escolhas e futuros.


