Após deixar a carreira bancária para cuidar do filho, Catharine Meffe criou a Senhorita Confeitaria, que registra cerca de sete mil vendas mensais e planeja abrir novas unidades e uma fábrica.
Com apenas R$ 100, uma cozinha doméstica e a disposição para recomeçar, Catharine Meffe transformou uma mudança de carreira em um negócio que hoje movimenta o mercado de confeitaria na Zona Leste de São Paulo. Fundadora da Senhorita Confeitaria, a empresária deixou o setor bancário em 2023 para conciliar o trabalho com a maternidade. Menos de três anos depois, com uma operação que reúne dez funcionários e registra cerca de sete mil vendas mensais, ela prepara os próximos passos para expandir a marca.
A empresa, que começou com a produção de doces em casa, registra faturamento médio mensal de R$ 250 mil, segundo a fundadora. Para 2026, a projeção é alcançar R$ 2,5 milhões em receita. O planejamento inclui a abertura de novas lojas próprias e a implantação de uma fábrica no Brás, região estratégica para a distribuição dos produtos pela capital paulista.
Da carreira bancária ao empreendedorismo
Antes de se dedicar integralmente à confeitaria, Catharine trabalhava no setor bancário. O interesse pela gastronomia surgiu com a busca por novos conhecimentos e se fortaleceu após cursos realizados no Instituto Gourmet. Inicialmente voltada à culinária salgada, sua formação avançou para a confeitaria, área em que começou a fazer as primeiras vendas para colegas de trabalho e por meio de grupos de WhatsApp.
A decisão de empreender em tempo integral veio em novembro de 2023, após dificuldades para conciliar a rotina profissional com os cuidados do filho pequeno. Sem uma rede de apoio, a empresária precisava administrar as demandas do emprego e os frequentes problemas de saúde da criança. Depois de uma internação do filho e de uma semana de afastamento, decidiu deixar o banco.
“Foi uma decisão muito difícil, porque eu estava deixando uma carreira estável para começar algo que eu não sabia se daria certo. Eu tinha filhos para sustentar, contas pra pagar, mas eu não conseguia me conformar que aquilo era a minha vida”, conta.
O investimento inicial veio do último salário recebido. Com R$ 100, Catharine comprou ingredientes e começou a produzir doces em casa. Os lucros das primeiras encomendas eram reinvestidos na compra de formas, utensílios, equipamentos e novos insumos. Nessa fase, o faturamento mensal chegou a aproximadamente R$ 5 mil.
A rotina, porém, estava longe de ser simples. Durante a madrugada, enquanto o filho dormia, ela preparava as encomendas. Durante o dia, dedicava-se aos cuidados da criança e tentava manter a produção em andamento.
Um episódio marcou esse período: Catharine recebeu cinco encomendas de festas completas para o mesmo fim de semana. Sem estrutura para contratar ajuda, precisou preparar bolos, doces e cupcakes com o filho no berço, ao lado da bancada de trabalho.
“Hoje eu olho para aquele momento com uma mistura de orgulho e emoção. Na época, eu estava simplesmente tentando fazer dar certo. Percebo que aquele fim de semana representa muito do que foi o início da Senhorita: eu não tinha muitos recursos, mas tinha muita disposição para trabalhar”, relembra.
De uma loja de sete metros quadrados a uma operação maior
O aumento da procura levou Catharine a buscar um espaço exclusivo para a produção. A primeira loja foi aberta no Brás, com apenas sete metros quadrados e investimento de R$ 15 mil, provenientes da última participação nos lucros recebida do banco.
O dinheiro foi utilizado para reformar o imóvel e adquirir equipamentos básicos, como geladeira, pia, balcão e bancada. Inicialmente, a proposta era trabalhar apenas com encomendas para festas. No entanto, a movimentação de pessoas interessadas em comprar doces na hora revelou uma nova oportunidade.
Em junho de 2024, a Senhorita Confeitaria passou a oferecer produtos de pronta entrega e delivery. O marido de Catharine deixou o emprego para participar da empresa, assim como o filho mais velho, que trabalhava como jovem aprendiz. Três meses depois, a operação contratou sua primeira funcionária.
O crescimento acelerado trouxe novos desafios. A quantidade de pedidos aumentava, mas faltavam espaço, equipamentos e profissionais para atender à demanda.
“Sim, as vendas começaram a crescer muito rápido e, em alguns momentos, a estrutura da empresa não acompanhou esse crescimento na mesma velocidade. Vieram muito mais pedidos, e não tínhamos pessoas o suficiente para atender aquela demanda, não tínhamos maquinários que comportassem produzir aquela quantidade, o espaço mais uma vez foi ficando escasso”, relata.
Em dezembro de 2024, a empreendedora decidiu ampliar a estrutura. Atualmente, a confeitaria ocupa aproximadamente 65 metros quadrados, conta com dez funcionários e acumula cerca de R$ 100 mil em investimentos na operação, segundo a fundadora.
A mudança de estratégia que impulsionou as vendas
Um dos principais pontos de virada da Senhorita Confeitaria foi a reformulação do cardápio. Catharine percebeu que os bolos e doces personalizados exigiam muitas horas de trabalho e dificultavam o aumento da produção.
A solução foi concentrar a operação em produtos padronizados, com apresentação e receitas consistentes. A mudança permitiu organizar melhor os processos, controlar estoques e produzir em maior escala.
“A primeira decisão que mudou totalmente o negócio e deu um ‘bum’ foi quando eu decidi tirar a linha de personalizados do cardápio, decidi que trabalharíamos apenas com produtos padrão. Bolos Nakeds, caixas fechadas de docinhos, doces diários sempre iguais, com o mesmo padrão de apresentação. Isso otimizou demais minha produção”, explica.
Com o novo modelo, a empresária conseguiu dedicar mais atenção à gestão do delivery, responsável atualmente por cerca de 90% do faturamento da empresa.
A operação registra aproximadamente sete mil vendas por mês, com tíquete médio de R$ 37. O recorde diário foi de 280 pedidos.
Entre os produtos de maior destaque está a torta de cookies, que chega a registrar a venda de aproximadamente 300 fatias por dia. Domingos e segundas-feiras estão entre os períodos de maior movimento.
Crescimento exige gestão e controle financeiro
A evolução da empresa também aparece nos números apresentados pela fundadora. Em 2024, a Senhorita Confeitaria faturou R$ 150 mil. Em 2025, a receita chegou a R$ 520 mil, um crescimento de aproximadamente 246,7%.
Para 2026, a meta é alcançar R$ 2,5 milhões em faturamento, consolidando a operação e preparando o negócio para uma nova etapa de expansão.
O crescimento também exigiu uma mudança no papel de Catharine dentro da empresa. No início, ela concentrava praticamente todas as atividades, desde a produção até o atendimento. Hoje, sua atuação está mais direcionada à gestão de pessoas, à padronização dos produtos, ao controle de custos e ao planejamento estratégico.
Entre os principais aprendizados, a empresária destaca a importância da precificação correta. No começo, a tentativa de manter preços baixos para atrair clientes comprometeu as margens do negócio. Com o aumento das vendas, tornou-se necessário compreender que volume não significa, necessariamente, lucratividade.
“Se a operação estiver desorganizada, vender mais só vai piorar tudo! A cozinha vai virar uma bagunça, os pedidos vão atrasar, os produtos vão para o cliente sem padrão”, afirma.
Outro desafio foi aprender a delegar tarefas e estabelecer processos internos. Para crescer, Catharine precisou desenvolver habilidades de liderança e deixar de ser a profissional responsável por todas as etapas para assumir a condução estratégica da confeitaria.
Fábrica e novas lojas estão nos planos
Com a operação atual mais estruturada, a Senhorita Confeitaria prepara uma nova fase de crescimento. A primeira nova unidade está prevista para o primeiro semestre de 2027, com o objetivo de ampliar a área de atendimento do delivery.
No planejamento de longo prazo, a empresária pretende abrir pelo menos mais três lojas próprias em diferentes regiões de São Paulo. A estratégia também inclui a construção de uma fábrica no Brás, que deverá centralizar a produção e abastecer as futuras unidades.
O investimento necessário e a capacidade produtiva da fábrica ainda estão em definição.
A proposta é trabalhar com pontos comerciais menores, voltados principalmente à retirada de pedidos e às entregas, reduzindo a necessidade de instalar grandes cozinhas em cada endereço. A localização da futura fábrica deve facilitar a distribuição dos produtos pela capital.
Apesar dos planos de expansão, Catharine não pretende adotar o modelo de franquias neste momento. A prioridade é manter o controle sobre a qualidade, a padronização e a identidade da marca.
Para 2027, a meta é alcançar R$ 5 milhões em faturamento.
Empreender também transformou a relação com a maternidade
A trajetória de Catharine mostra que empreender para conquistar autonomia não significa, necessariamente, trabalhar menos. Nos primeiros meses, a rotina foi ainda mais intensa do que a vivida no emprego formal. A diferença, segundo ela, está na possibilidade de construir uma estrutura alinhada às necessidades da família e participar mais diretamente das decisões sobre sua própria vida profissional.
“Empreender me deu mais autonomia, mas não necessariamente mais tempo. No começo, inclusive, eu trabalhava muito mais do que antes. A grande diferença foi poder construir uma rotina em que eu conseguia estar mais presente nas decisões e nos momentos importantes dos meus filhos”, afirma.
Para os próximos cinco anos, Catharine pretende consolidar a Senhorita Confeitaria como uma marca de referência em doces de pronta entrega em São Paulo. O desafio será ampliar a capacidade produtiva e alcançar novos mercados sem perder a identidade construída desde os primeiros dias, quando os produtos eram preparados em casa, com poucos recursos e um investimento inicial de apenas R$ 100.
Mais do que uma história de crescimento financeiro, a trajetória da empreendedora evidencia a importância da adaptação, da organização e da capacidade de transformar dificuldades em decisões estratégicas para sustentar um negócio em expansão.


