Por Ricardo Kissu, Head de Public Cloud e SRE (Site Reliability Engineering) na T-Systems do Brasil
A migração de ambientes de tecnologia on-premises para a nuvem deixou de ser apenas uma tendência e passou a fazer parte da estratégia de transformação digital de empresas de diferentes setores. A possibilidade de acessar arquivos remotamente, ampliar ou reduzir recursos conforme a demanda, contar com backups automatizados e utilizar serviços mais resilientes de recuperação de desastres são alguns dos fatores que impulsionaram essa mudança.
O crescimento do mercado confirma essa tendência. Segundo o Guia de Gastos Mundiais com Software e Serviços de Nuvem Pública da International Data Corporation (IDC), os gastos globais com serviços de nuvem pública devem ultrapassar US$ 1 trilhão em 2026, representando crescimento superior a 21% em relação ao ano anterior. A expectativa é que esse valor dobre até 2029.
Outro levantamento, da Omdia, aponta que os gastos globais com serviços de infraestrutura em nuvem chegaram a US$ 110,9 bilhões no quarto trimestre de 2025, alta anual de 29%. Foi o sexto trimestre consecutivo com crescimento superior a 20%.
Mas, à medida que a adoção avança, surge um novo desafio: migrar para a cloud não é suficiente. Sem planejamento, governança e acompanhamento contínuo, a empresa pode perder justamente algumas das vantagens que motivaram a mudança.
Migração sem planejamento pode elevar custos
Um ambiente hospedado na nuvem pode oferecer ganhos de eficiência, performance, elasticidade e agilidade. Entretanto, esses benefícios dependem diretamente da forma como a infraestrutura é planejada e administrada.
A pressa na migração pode deixar as empresas sem visibilidade sobre os custos e sobre a distribuição dos recursos entre diferentes áreas do negócio. Quando não existem políticas adequadas de governança, diferentes equipes podem contratar ou disponibilizar workloads na nuvem sem uma avaliação centralizada, dificultando o controle financeiro.
O problema se torna ainda mais relevante diante do avanço da inteligência artificial. A crescente demanda por GPUs e por infraestrutura necessária para aplicações de IA vem pressionando a cadeia de produção de semicondutores e elevando os custos de componentes utilizados em servidores.
Segundo a TrendForce, os preços das memórias DDR5 subiram 307% desde 2025, enquanto os módulos DDR4 registraram alta de 158%. As elevações nos preços de DRAM e NAND flash também contribuem para aumentar a pressão sobre os custos de infraestrutura.
Nesse cenário, administrar a cloud deixou de ser apenas uma questão técnica. O controle financeiro e a governança passaram a ocupar posição estratégica.
Os pilares de uma estratégia eficiente
Para empresas que já migraram ou planejam migrar seus ambientes para a nuvem, a adoção de serviços especializados pode ajudar a garantir segurança, performance e melhor aproveitamento dos investimentos.
É nesse contexto que entram os Cloud Professional Services (CPS), que podem envolver quatro etapas principais: assessment, planning & design, migration & integration e optimization & governance.
No assessment, é analisado se a migração para uma nuvem pública é realmente a melhor alternativa para a empresa. Também são avaliados o hyperscaler mais adequado, a possibilidade de adoção de uma estratégia híbrida e quais workloads devem ou não ser migrados.
Na etapa de planning & design, o foco está na arquitetura do ambiente. São avaliadas estruturas de rede, segurança e conectividade para garantir que servidores, máquinas virtuais, serviços e internet funcionem de maneira adequada, reduzindo riscos de indisponibilidade de aplicações.
Já em migration & integration ocorre a migração ou integração dos workloads para o ambiente definido nas etapas anteriores, seguindo as melhores práticas de arquitetura, segurança e operação.
Por fim, optimization & governance concentra esforços na melhoria contínua do ambiente, na governança e na modernização da infraestrutura. É também nessa etapa que conceitos de FinOps podem ser incorporados para conectar decisões técnicas a resultados financeiros.
A estratégia permite analisar ganhos, controlar custos e estabelecer limites de elasticidade. Dessa forma, um aumento repentino de demanda não necessariamente precisa resultar em um desequilíbrio financeiro.
Inteligência artificial também pode ajudar a controlar a cloud
Se, por um lado, a inteligência artificial aumenta a demanda por infraestrutura, por outro, ela também pode ser utilizada para tornar a gestão da nuvem mais eficiente.
A elasticidade da cloud permite ampliar ou reduzir recursos de acordo com a necessidade, criando condições para desenvolver e escalar aplicações de inteligência artificial com maior agilidade.
A própria IA também pode apoiar diferentes etapas da jornada de adoção da nuvem. A tecnologia pode ajudar a identificar oportunidades de melhoria em ambientes on-premises, analisar workloads, apontar boas práticas para migração, produzir documentação e automatizar tarefas operacionais.
Na gestão cotidiana, ferramentas baseadas em IA também podem auxiliar no monitoramento do ambiente, na análise de causa raiz de problemas, na coleta de eventos, logs e alertas e na elaboração de relatórios voltados à otimização de custos.
A automação pode ainda identificar oportunidades para reduzir recursos ociosos e apoiar decisões sobre expansão ou redução da infraestrutura.
Cloud precisa ser administrada continuamente
A adoção da nuvem não deve ser encarada como um projeto com começo, meio e fim. Depois da migração, começa uma etapa igualmente importante: a gestão contínua do ambiente.
Serviços profissionais de cloud podem contribuir para reduzir custos em até 30%, segundo a T-Systems, ao ampliar a visibilidade sobre o consumo e permitir uma avaliação mais precisa da necessidade de recursos de cada área da empresa.
Com uma estrutura especializada, gestores e equipes de tecnologia podem direcionar mais tempo para as prioridades estratégicas enquanto profissionais especializados acompanham a utilização da infraestrutura e identificam oportunidades de otimização.
A lógica é simples: não basta colocar a infraestrutura na nuvem. É preciso saber por que determinado recurso está sendo utilizado, quanto ele custa, qual valor entrega ao negócio e se continua sendo necessário.
Com o avanço da inteligência artificial e o aumento da complexidade dos ambientes digitais, a cloud tende a assumir um papel cada vez mais estratégico nas empresas. Nesse cenário, governança, segurança, automação e controle financeiro passam a ser tão importantes quanto a própria migração.
A nuvem, portanto, não deve ser vista apenas como um destino para a infraestrutura de TI, mas como uma plataforma que precisa ser continuamente planejada, monitorada e otimizada para gerar valor ao negócio.


