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Crédito, desburocratização, inteligência artificial e acesso a novos mercados estão entre os principais pontos defendidos pelo ministro em entrevista exclusiva à Você & Negócios.
O empreendedorismo brasileiro atravessa uma fase de transformação. Embora a abertura de empresas tenha se tornado mais rápida e menos burocrática, permanecer no mercado, superar os primeiros anos de operação e encontrar condições para crescer continuam sendo desafios importantes para os pequenos empresários. Em entrevista exclusiva à Você & Negócios, Paulo Henrique Pereira, ministro do Empreendedorismo, fala sobre essas dificuldades e apresenta as medidas que considera fundamentais para criar um ambiente mais favorável aos micro e pequenos negócios.
Para Pereira, o principal problema nunca esteve na falta de dedicação ou talento de quem decide empreender. O desafio está em garantir que o empresário tenha condições de transformar seu esforço em um negócio sustentável.
“O gargalo para a sobrevivência de quem abre um negócio no Brasil nunca foi a falta de dedicação ou de talento dos nossos empreendedores”, afirma.
O ministro destaca que o país avançou na simplificação da abertura de empresas. Segundo ele, há duas décadas, o processo poderia levar 152 dias, enquanto atualmente o registro pode ser realizado em 24 horas por meio de ferramentas como o Portal do Empreendedor e a Redesim. Para Pereira, no entanto, facilitar a abertura é apenas o começo. “O governo precisa ser um parceiro ativo da sobrevivência do negócio”, destaca.
Nesse cenário, os primeiros dois anos de uma empresa ganham importância. É nesse período que o empreendedor precisa validar seu negócio, conquistar clientes e organizar sua operação. Por isso, o ministro defende uma estrutura de apoio que reúna capacitação, tratamento tributário diferenciado, acesso às compras públicas, garantias de crédito, seguro de exportação e desenvolvimento de redes capazes de aproximar os empresários de novas oportunidades.
Quando fala sobre crescimento, Pereira resume os principais desafios em três pontos: crédito, demanda e desburocratização. O acesso a financiamento com melhores condições, segundo ele, permite que empresas invistam em produtividade, ampliem suas operações e conquistem novos mercados.
Na entrevista, o ministro cita a expansão do Pronampe e a criação do ProCred360. De acordo com os números apresentados por ele, o Pronampe concedeu R$ 51,7 bilhões para 281 mil empresas em 2026, enquanto o ProCred360 concedeu R$ 7,7 bilhões para 196 mil empresas. “O crédito barato abre a oportunidade para o empreendedor com boas ideias aumentar a produtividade do seu negócio, ganhar escala e disputar mercado”, afirma.
Além do crédito, a geração de demanda também aparece como uma frente importante. Pereira aponta o crescimento econômico e a geração de empregos como fatores capazes de ampliar o consumo, mas destaca também o potencial das exportações e das compras públicas. Nesse contexto, o Contrata+Brasil é apresentado como uma ferramenta para aproximar microempreendedores individuais e pequenos negócios das demandas de órgãos públicos e estatais.
A burocracia é outro obstáculo citado pelo ministro. Para ele, o processo de simplificação precisa continuar, especialmente à medida que os negócios crescem. “Se eu pudesse cortar um mal pela raiz agora mesmo, seria a combinação perversa da burocracia travada com o custo do dinheiro que sufoca o capital de giro das empresas”, afirma.
Pereira também chama atenção para o impacto dos juros e do spread sobre os pequenos empresários e defende a utilização de fundos garantidores como mecanismo para ampliar o acesso ao crédito. Ao mesmo tempo, considera fundamental avançar na digitalização dos serviços públicos e na simplificação dos processos que fazem parte da rotina de quem empreende.
Entre as propostas apresentadas pelo ministro está a ampliação do limite de faturamento do MEI. Segundo Pereira, uma proposta encaminhada ao Congresso prevê elevar o teto de faturamento para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, além de permitir a contratação de um funcionário adicional. A intenção, segundo ele, é criar mais espaço para que o empreendedor possa crescer sem enfrentar uma mudança desproporcional em sua estrutura tributária.
A inteligência artificial também ocupa um espaço cada vez maior nessa agenda. Para Pereira, a tecnologia pode representar uma oportunidade importante para aumentar a produtividade dos pequenos negócios, mas existe o risco de aprofundar a concentração econômica caso as ferramentas mais avançadas fiquem restritas às grandes empresas.
“Se o Estado cruzar os braços, a inteligência artificial vira apenas mais uma ferramenta de concentração de renda na mão das grandes corporações”, afirma.
O ministro cita iniciativas como a utilização de mecanismos de inteligência artificial pelas Juntas Comerciais e a criação da Meire, assistente virtual do Portal do Empreendedor. Em 2026, também foi lançado o programa Impacto Feminino, em parceria com a Rede Mulher Empreendedora, com 5 mil vagas de capacitação em inteligência artificial para mulheres líderes de pequenos negócios. Segundo Pereira, a intenção é ampliar as oportunidades de capacitação e avançar também no acesso de startups digitais à capacidade de processamento de supercomputadores do governo.
Outro ponto abordado na entrevista é a romantização do empreendedorismo. Para o ministro, as redes sociais muitas vezes apresentam uma visão simplificada de quem empreende, como se abrir uma empresa significasse apenas ter liberdade, flexibilidade e possibilidade de ganhar dinheiro. A realidade, segundo ele, envolve dedicação, riscos e uma sucessão de tentativas e aprendizados.
“O empreendedor bem-sucedido é extremamente dedicado e o sucesso é, muitas vezes, o resultado de uma sucessão de fracassos anteriores”, afirma.
Pereira também considera importante evitar que o empreendedorismo seja tratado como uma justificativa para a ausência do Estado. Na visão apresentada pelo ministro, o poder público deve atuar como parceiro dos empresários, garantindo direitos e criando condições para que eles tenham acesso a crédito, tecnologia e mercado.
Durante a entrevista, o ministro também fala sobre uma mudança em sua própria percepção a respeito das dificuldades enfrentadas pelas pequenas empresas. Segundo ele, durante muito tempo prevaleceu a ideia de que a principal causa do fechamento de um negócio seria a falta de capacitação técnica ou de conhecimento de gestão por parte do proprietário.
A experiência na gestão pública, porém, teria mostrado que essa explicação é insuficiente. “O micro e pequeno empresário brasileiro tem uma garra, uma resiliência e uma inteligência prática de mercado que aula nenhuma ensina”, afirma.
Para Pereira, a capacitação continua sendo fundamental, mas precisa estar acompanhada de políticas capazes de enfrentar problemas como juros elevados, instabilidade econômica, dificuldade de acesso ao crédito e falta de mecanismos de garantia.
Ao projetar os próximos meses, o ministro destaca a expectativa de um novo ciclo no mercado de crédito e defende a aprovação da ampliação do teto de faturamento do MEI. Para ele, a combinação entre maior espaço para crescimento, expansão das compras públicas e melhores condições de financiamento pode abrir novas oportunidades para os pequenos negócios.
“Quando tivermos o MEI podendo faturar mais sem medo de imposto e a expansão plena do Contrata+Brasil elevando a renda dos MEIs, nós vamos destravar a maior onda de crescimento, inclusão e prosperidade da Classe C que este país já testemunhou”, afirma.
Na entrevista exclusiva à Você & Negócios, Paulo Henrique Pereira apresenta uma visão de empreendedorismo que vai além da simples abertura de empresas. O desafio, segundo as propostas apresentadas pelo ministro, é construir um ambiente em que os pequenos negócios tenham condições de sobreviver, crescer, incorporar novas tecnologias e acessar mercados.
Em um país onde milhões de brasileiros dependem de seus próprios negócios para gerar renda e oportunidades, a discussão sobre crédito, burocracia, inovação e acesso ao mercado ganha cada vez mais espaço na agenda econômica.


