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Luka Choi aposta em tecnologia para enfrentar um dos maiores desafios do emagrecimento: manter o peso

Com a criação da Nura, startup ainda em fase de validação, empreendedor quer transformar o acompanhamento de pessoas que utilizam medicamentos para emagrecimento por meio de orientação adaptativa, dados e inteligência artificial

O avanço dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade abriu uma nova frente no mercado de saúde e tecnologia. Mas, para Luka Choi, existe uma questão que ainda recebe pouca atenção: o que acontece depois que a pessoa começa a emagrecer?

Foi a partir dessa provocação que surgiu a ideia da Nura, startup que está sendo construída com a proposta de acompanhar pessoas que utilizam medicamentos da classe dos GLP-1 e ajudá-las a transformar o processo de emagrecimento em hábitos sustentáveis de longo prazo.

A tese de Luka parte de uma distinção importante. Emagrecer e manter o peso são desafios diferentes. O medicamento pode atuar diretamente sobre a parte física do processo, mas não necessariamente modifica a rotina, os comportamentos e os hábitos que levarão à manutenção dos resultados.

“Emagrecer e manter o peso são dois problemas diferentes, e o segundo está muito mais desassistido”, explica.

Uma nova etapa para o mercado de GLP-1

Um dos pontos que motivaram Luka foi o avanço do mercado de medicamentos para emagrecimento e a perspectiva de ampliação do acesso aos tratamentos com GLP-1.

Nesse cenário, ele enxerga um espaço ainda pouco explorado: o acompanhamento contínuo.

A proposta da Nura não é simplesmente criar mais um aplicativo para registrar peso, alimentação ou atividades. A ideia é desenvolver uma plataforma de orientação capaz de considerar o contexto individual de cada usuário e adaptar as recomendações ao longo da jornada.

“O medicamento é a primeira metade da equação, a Nura é a segunda”, resume.

Foto: Divulgação

Da orientação genérica para uma jornada personalizada

Um dos pontos centrais da startup é justamente superar a lógica de recomendações padronizadas. Para Luka, uma pessoa que está na primeira semana de tratamento vive uma realidade completamente diferente daquela que já está no sexto mês. Por isso, a orientação também deveria mudar.

A Nura pretende utilizar dados registrados pelo usuário para construir uma experiência que acompanhe essa evolução. Um dia difícil, uma mudança na rotina ou até mesmo um efeito colateral podem influenciar a orientação recebida posteriormente. A diferença, segundo o empreendedor, está em transformar informações acumuladas em acompanhamento. Na prática, a proposta é sair de um conteúdo estático, semelhante a um material pronto que poderia ser entregue para qualquer pessoa, para um sistema que aprende com a jornada individual.

“Cada dia alimenta o próximo”, afirma.

É nesse ponto que entram tecnologia, dados e inteligência artificial. A intenção é utilizar essas ferramentas para compreender o contexto de cada usuário e oferecer uma orientação cada vez mais individualizada.

Tecnologia, comportamento e construção de hábitos

Para Luka, entretanto, tecnologia sozinha não resolve o problema. A manutenção do peso também passa pelo comportamento. A estratégia pensada para a Nura envolve orientação e gamificação, buscando estimular repetição e recompensa. A lógica é que informação, isoladamente, não é suficiente para construir um hábito.

O objetivo é fazer com que o usuário acompanhe diariamente sua própria jornada, transformando o processo em algo contínuo. Essa visão também diferencia a proposta de Luka de uma abordagem baseada exclusivamente no medo dos efeitos colaterais ou na ansiedade relacionada ao tratamento. Para ele, o foco deve estar na construção de uma rotina capaz de permanecer mesmo quando a utilização do medicamento mudar.

Uma startup construída diante do público

Enquanto desenvolve a Nura, Luka decidiu também mostrar publicamente o processo por meio do Instagram. A escolha tem duas dimensões. De um lado, está a construção de seu próprio repertório profissional e a oportunidade de mostrar quem está por trás do projeto. De outro, existe uma visão estratégica sobre distribuição. Para o empreendedor, em negócios digitais, construir um bom produto é apenas parte do desafio. Atrair pessoas e criar uma comunidade em torno da proposta também pode ser determinante. Mostrar o processo antes mesmo de o produto estar pronto, portanto, tornou-se parte dessa estratégia.

Mais do que apresentar apenas resultados, Luka optou por compartilhar dúvidas, testes, erros e mudanças de rota. A exposição, segundo ele, também funciona como uma forma de aumentar a responsabilidade sobre as próprias decisões. Ao tornar o processo público, cada escolha precisa ser analisada com ainda mais rigor.

O mercado também ajuda a construir a ideia

Embora Luka não considere o Instagram originalmente um laboratório de validação, a exposição pública acabou aproximando pessoas que vivem o problema que a startup pretende solucionar. Um dos sinais que mais chamou sua atenção foi justamente a intensidade com que potenciais usuários reconheceram a existência daquela dor. A partir dessas conversas, surge outro desafio: transformar relatos e experiências em dados capazes de gerar orientação realmente útil.

É uma etapa que ainda está em andamento. A startup está em fase de construção e validação, com conversas não apenas com potenciais usuários, mas também com profissionais da área de nutrologia. A intenção é compreender o problema por diferentes perspectivas e construir uma solução que considere tanto a experiência do usuário quanto os aspectos clínicos envolvidos.

A mudança de rota que redefiniu o produto

Como acontece em muitos processos de construção de startups, a ideia original também passou por mudanças. Uma das principais foi a definição do público. Inicialmente, Luka imaginava concentrar a Nura em pessoas que já estavam utilizando medicamentos para emagrecimento. Durante o processo de pesquisa, percebeu que existiam dois momentos importantes dentro da mesma jornada: a pessoa que já utiliza GLP-1 e aquela que ainda está decidindo se vai iniciar o tratamento.

Essa percepção alterou a maneira como ele passou a enxergar não apenas o produto, mas também o funil de mercado da startup. A mudança é um exemplo de uma das principais lições que Luka afirma estar aprendendo como empreendedor: a velocidade de execução pode ser mais importante do que tentar construir um plano perfeito antes de começar.

“O mercado te corrige mais rápido do que qualquer análise”, resume.

Saúde também exige responsabilidade

Transformar a Nura em uma startup de saúde envolve desafios que vão além de produto, tecnologia e mercado. Questões regulatórias, proteção de dados e normas relacionadas à saúde precisam fazer parte da construção desde o início. Luka cita especialmente a LGPD e as normas da Anvisa como pontos que exigem atenção durante o desenvolvimento.

Para ele, esse cuidado não pode ser incorporado apenas quando o produto estiver pronto. Em uma solução que trabalha com informações relacionadas à saúde, a responsabilidade precisa estar presente desde a concepção.

Além da parte regulatória, existe o desafio operacional. Entre uma ideia validada e um produto efetivamente nas mãos dos usuários existe uma sequência de decisões, testes e ajustes que muitas vezes não aparecem para quem acompanha apenas o resultado final.

Mostrar o caminho, e não apenas a chegada

A construção pública da Nura também tem uma dimensão que ultrapassa o próprio negócio. Luka acredita que mostrar o processo pode ajudar outras pessoas interessadas em empreender, justamente porque grande parte do conteúdo sobre empreendedorismo apresenta empresas depois que elas já alcançaram resultados.

O problema, segundo ele, é que isso pode criar a impressão de que construir uma empresa é um processo linear. Ao mostrar dúvidas, mudanças de rota, testes e decisões, a intenção é revelar justamente a parte menos visível da jornada. Para quem acompanha, a mensagem é simples: não é necessário ter todas as respostas para começar.

Do Brasil para o mundo

Ainda em fase de validação, a Nura tem pela frente novas conversas com usuários e profissionais da área de nutrologia, além da evolução do produto a partir dos aprendizados dessa etapa. Mas Luka já pensa além do mercado brasileiro. Sua expectativa é que, em três anos, a startup esteja expandindo internacionalmente e realizando grandes ativações no Brasil. A razão está na própria natureza do problema identificado.

A dificuldade de transformar o emagrecimento em uma mudança sustentável de comportamento não pertence a um único país. É uma questão que pode alcançar pessoas em diferentes mercados. Por isso, para Luka, o Brasil representa o ponto de partida, não o limite.

E enquanto a Nura ainda está sendo construída, ele também constrói outra coisa: uma comunidade acompanhando, em tempo real, o nascimento de uma empresa. A aposta é que tecnologia, dados, inteligência artificial e comportamento possam se encontrar em uma mesma experiência. Mais do que ajudar alguém a perder peso, a proposta é acompanhar o que vem depois: a construção de uma rotina capaz de sustentar a mudança.

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