Tarifas, sanções, conflitos armados e a disputa por tecnologia entraram na conta do valuation e estão redesenhando a lógica de comprar e vender empresas
Por muito tempo, uma operação de fusão ou aquisição foi decidida por um conjunto relativamente estável de variáveis: receita, margem, sinergias e potencial de crescimento. Em 2026, porém, um fator que antes ocupava espaço principalmente no capítulo de riscos dos memorandos de investimento migrou para o centro da análise: a geopolítica.
A escalada das tensões entre Estados Unidos e China, os reflexos dos conflitos no Oriente Médio, o movimento de diferentes países para fortalecer suas indústrias nacionais e a disputa por tecnologia, energia e infraestrutura estratégica necessária ao avanço da inteligência artificial transformaram a percepção de risco dos investidores e passaram a influenciar diretamente a alocação global de capital.
“A geopolítica não reduziu o apetite por fusões e aquisições. Ela mudou o destino do capital: alguns setores perderam atratividade e outros passaram a concentrar a atenção dos compradores”, avalia Lucas Della-Sávia, sócio-diretor da FC Partners.
O apetite, de fato, permanece elevado. Segundo projeções da PwC, o mercado global de fusões e aquisições deve movimentar cerca de US$ 4 trilhões em 2026.
Quando a geopolítica chega ao valuation
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa nova dinâmica está no varejo digital. Em agosto de 2022, uma captação privada avaliou a varejista chinesa Shein em US$ 98,2 bilhões. Em agosto de 2026, ao lançar sua oferta pública inicial em Hong Kong, a companhia passou a trabalhar com uma avaliação de até aproximadamente US$ 27 bilhões, uma redução da ordem de 70% em relação ao pico.
A queda da avaliação ocorreu mesmo com a expansão da receita. Segundo documentos da listagem, o faturamento da empresa passou de US$ 32,1 bilhões em 2023 para US$ 41,9 bilhões em 2025.
O que mudou foi principalmente o ambiente regulatório e comercial ao redor da companhia.
Os Estados Unidos encerraram a isenção alfandegária para pequenas encomendas em etapas, atingindo inicialmente produtos provenientes da China e de Hong Kong e, posteriormente, remessas de outros países. Na União Europeia, também avançaram medidas para reduzir a isenção aplicada a encomendas de menor valor.
Os efeitos começaram a aparecer nos resultados. No primeiro trimestre de 2026, a receita da Shein cresceu apenas 1,1%, enquanto a receita nos Estados Unidos caiu 14,3%. O lucro operacional recuou 26% e a margem operacional passou de 3,9% para 2,9%.
“Nenhuma dessas variáveis é uma falha de execução da empresa. São decisões tomadas em Washington e em Bruxelas que se transformaram em custo, em ritmo de crescimento menor e, no fim da linha, em múltiplo menor. É exatamente isso que queremos dizer quando afirmamos que a geopolítica passou a fazer parte da precificação dos ativos”, explica Della-Sávia.
O caso demonstra uma mudança importante na lógica do mercado. Uma empresa pode continuar crescendo, aumentando sua receita e mantendo uma operação relevante, mas ainda assim perder valor aos olhos dos investidores quando seu modelo de negócios passa a estar mais exposto a decisões políticas, comerciais e regulatórias.
Defesa, tecnologia e infraestrutura ganham protagonismo
Enquanto determinados modelos de negócio passaram a carregar um prêmio de risco maior, setores estratégicos começaram a atrair ainda mais capital.
Na indústria de defesa, por exemplo, o movimento é evidente. De acordo com a PwC, o valor global das operações de M&A nos setores aeroespacial e de defesa ultrapassou US$ 30 bilhões em 2025. O ritmo observado no primeiro semestre de 2026 aponta para um encerramento do ano próximo de US$ 32 bilhões.
Mais do que o volume financeiro, chama atenção a natureza dos negócios. Os compradores procuram empresas capazes de ampliar capacidade produtiva, desenvolver tecnologias críticas e fortalecer cadeias de suprimentos em um cenário internacional marcado por maior instabilidade.
A inovação também entrou nesse movimento. Segundo levantamento da Dealroom, empresas globais de defesa participaram de um volume recorde de US$ 4,1 bilhões em rodadas de investimento em startups do setor em 2026.
Grande parte dos recursos foi direcionada a empresas que desenvolvem inteligência artificial, drones, robótica, sistemas autônomos e outras tecnologias de uso dual, capazes de atender tanto aplicações civis quanto necessidades relacionadas à segurança e defesa.
“Se antes uma due diligence estava concentrada em receita, margem, participação de mercado e sinergias, hoje ela também precisa responder se a operação depende de fornecedores externos, se o preço de seus insumos é volátil, se está exposta a tarifas, se pode ser afetada por sanções internacionais e qual seria o impacto de uma interrupção na cadeia global de suprimentos”, afirma Della-Sávia.
O novo risco também muda os múltiplos
A consequência direta dessa transformação aparece na formação dos múltiplos.
Duas empresas com resultados financeiros semelhantes podem receber avaliações bastante diferentes dependendo de sua exposição geopolítica. Uma companhia altamente dependente de fornecedores asiáticos, por exemplo, pode ser considerada mais arriscada do que uma concorrente com produção diversificada em diferentes regiões.
Da mesma forma, empresas concentradas em determinados mercados podem sofrer descontos de valuation quando estão expostas a tarifas, sanções, restrições comerciais ou mudanças regulatórias.
“A geopolítica passou a fazer parte da precificação dos ativos, e a reorganização das cadeias globais de suprimentos também vem alterando o mapa das aquisições”, avalia o executivo.
Nesse cenário, resiliência operacional passou a ser um ativo estratégico.
Cibersegurança e inteligência artificial entram no tabuleiro
A aquisição da Wiz pelo Google também ajuda a ilustrar essa transformação. Anunciada em 2025 por US$ 32 bilhões, a operação representou a maior aquisição da história da companhia e reforçou a estratégia do Google de ampliar sua atuação em computação em nuvem e cibersegurança.
Em um ambiente no qual empresas, governos e infraestruturas críticas estão cada vez mais expostos a ataques digitais, segurança cibernética deixou de ser apenas uma questão tecnológica e passou a ser tratada como componente estratégico da infraestrutura econômica.
Outro movimento relevante ocorreu entre empresas controladas por Elon Musk. Em fevereiro de 2026, a SpaceX anunciou a aquisição da xAI em uma operação que avaliou a startup de inteligência artificial em US$ 250 bilhões e criou uma companhia combinada avaliada em aproximadamente US$ 1,25 trilhão.
A combinação entre inteligência artificial, infraestrutura espacial e conectividade mostra como diferentes tecnologias estratégicas estão convergindo. Em meio à disputa tecnológica entre Estados Unidos e China e ao aumento dos investimentos relacionados à segurança nacional, ativos tecnológicos passaram a ter importância que vai muito além de sua capacidade imediata de geração de receita.
A nova geografia do capital
Diante desse ambiente, a reorganização das cadeias produtivas tornou-se uma das principais estratégias para reduzir a dependência de um único país e diminuir os riscos provocados por conflitos, sanções, tarifas comerciais e gargalos logísticos.
A atualização de 2026 do estudo do McKinsey Global Institute sobre a geometria do comércio global aponta para uma redistribuição gradual das atividades produtivas. O Sudeste Asiático aprofundou sua participação na manufatura global, enquanto a Índia ganhou espaço em determinados segmentos.
O Brasil também aparece nesse processo, especialmente por sua capacidade de ampliar exportações de commodities para a China e ocupar espaços deixados por outros fornecedores.
Ao mesmo tempo, a infraestrutura necessária para a expansão da inteligência artificial, especialmente data centers e seus componentes, tornou-se um dos motores da expansão do comércio internacional.
“Essa reorganização faz com que empresas posicionadas em mercados considerados mais resilientes passem a ser alvos naturais de investidores estratégicos. Embora o Brasil esteja distante dos principais conflitos militares, seus efeitos são sentidos diretamente nas decisões de investimento”, explica Della-Sávia.
Brasil pode se tornar estratégico em setores críticos
A indústria farmacêutica é um exemplo de como essa nova dinâmica pode gerar oportunidades no mercado brasileiro.
O país ainda apresenta elevada dependência de importações de insumos farmacêuticos ativos, especialmente provenientes da Ásia. Em momentos de aumento das tensões internacionais, interrupções logísticas ou mudanças tarifárias, os custos de produção podem subir e a volatilidade dos estoques aumentar.
Esse cenário cria incentivos para investimentos em produção nacional, integração vertical e consolidação do setor.
“Esse contexto vem estimulando investimentos em produção nacional, integração vertical e consolidação do setor, abrindo espaço para fusões e aquisições envolvendo fabricantes de insumos, laboratórios e empresas químicas”, diz Lucas Della-Sávia.
A mesma lógica pode ser observada em segmentos relacionados à infraestrutura energética, equipamentos industriais, mineração, fertilizantes, logística, defesa, tecnologia e segurança digital.
São setores que passaram a ser vistos não apenas pelo potencial de retorno financeiro, mas também pela capacidade de contribuir para a autonomia econômica e tecnológica dos países.
Tecnologia passa a valer também pela posição estratégica
No Brasil, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, também acompanha com atenção crescente operações envolvendo inteligência artificial, plataformas digitais e ativos tecnológicos. Nesses negócios, o valor da transação muitas vezes está menos relacionado à receita atual da empresa e mais ao acesso à tecnologia, propriedade intelectual, dados, infraestrutura e equipes altamente especializadas.
Essa mudança amplia a complexidade das análises de M&A. O comprador não olha mais apenas para o que a empresa é hoje. Precisa avaliar o que ela pode representar diante das transformações econômicas, tecnológicas e geopolíticas dos próximos anos.
O novo ativo invisível
A transformação provocada pela geopolítica talvez possa ser resumida em uma mudança de perspectiva: previsibilidade passou a ter valor. Empresas capazes de manter suas operações mesmo diante de mudanças nas tarifas, restrições comerciais, interrupções logísticas ou alterações no cenário internacional podem conquistar uma vantagem competitiva relevante.
“O valuation deixou de refletir apenas o desempenho financeiro. Ele passou a medir a capacidade de uma empresa continuar operando quando o mundo muda. Mais do que receita, margem e potencial de crescimento, hoje é preciso entender de onde vêm os insumos, onde a empresa produz, quais mercados concentram sua receita, qual é o grau de dependência internacional e como uma nova tarifa, sanção ou conflito afetaria a operação”, conclui Della-Sávia.
A nova realidade do M&A, portanto, não significa que os fundamentos financeiros perderam importância. Receita, margem, crescimento e sinergias continuam sendo essenciais. A diferença é que, em 2026, esses indicadores precisam ser analisados dentro de um mapa muito maior.
Nesse mapa, fronteiras, tarifas, tecnologia, energia, cadeias de suprimentos e segurança nacional passaram a influenciar diretamente quanto uma empresa vale e, principalmente, quem estará disposto a comprá-la. Em um mercado global de aproximadamente US$ 4 trilhões, entender para onde o dinheiro está indo exige cada vez mais do que olhar para os balanços. É preciso compreender para onde o mundo está caminhando.


